segunda-feira, 4 de abril de 2011

ALIANÇAS PARTIDAS

            O que é mais resistente: o amor ou o ouro?
          Quando nos habituamos a usar uma aliança no dedo, ela se molda tão perfeitamente a ele que já nem nos damos conta da sua presença ali.
          E o tempo passa, o corpo adquire novos contornos e a aliança não se modifica, nem perde o brilho, completamente aderida ao dedo anular.
         Então, um dia, por qualquer razão, precisamos removê-la e não conseguimos mais. Ela continua a mesma, mas o dedo cresceu em torno dela. Tentamos todo o tipo de lubrificantes e só conseguimos inchar mais o dedo, firmando-a melhor no espaço que cavou para si.
        Em pânico, temendo uma emergência qualquer, procuramos um ourives para cortá-la. Muitos alicates e muitas limas depois, acompanhados de desconforto, pressão e medo e a aliança finalmente se rompe. Mesmo assim, não foi imediata sua retirada, porque, grossa, recusava-se a abrir para dar passagem ao dedo já machucado, não por ela, mas pelos que tentaram retirá-la.
       Não dá pra deixar de refletir que muitos casamentos são bem mais fáceis de desmanchar, muitos casais se separam com bem mais facilidade do que a retirada de um símbolo apenas.
       Dizem que a paixão dura, no máximo, dois anos. E que depois o que vai contar mesmo são as afinidades, o modo de encarar a vida, os valores, o senso de humor, a capacidade de dialogar e outras coisas que, no início, não parecem ter muita importância, todavia, com o passar do tempo vão definir que tipo de vida o casal terá, se seus dias terão paz e felicidade ou se viverão em constante atrito, numa disputa infernal sobre tudo e todos.
        Talvez as Bodas de Ouro tenham esse significado - aqueles dois sobreviveram a todas as intempéries, recusaram-se a desatar os nós e a se deixarem arrancar um do outro, assim como a minha aliança de ouro.

Um comentário:

Ivana Maria disse...

É... cara amiga, a cada dia fica mais difícil encontrar um casal que envelheceu junto. Se alcançamos o direito de não ser mais obrigada a aguentar um relacionamento que não dá certo, por motivos financeiros ou outro qualquer, por outro lado, essa liberdade provocou em muitas mulheres um sentimento de não suportar nada do companheiro. Sabemos que um relacionamento não tem apenas coisas boas, ninguém é perfeito e o amor verdadeiro é paciente e compreensivo. Compreensão e humildade não é submissão, é sabedoria, não é mesmo? Um abraço. Parabéns pelo texto, muito sábio e muito bem escrito.