domingo, 18 de fevereiro de 2018

DOMINGO



Hoje é domingo. Dia do Senhor. Dia da família. Dia de futebol na TV. Dia de cerveja gelada. Dia de churrasco ou macarronada. Dia de caminhar. Dia de ler o jornal. Dia de pensar. Dia de dormir de tarde e até mais tarde. Dia de refazer as promessas de segunda-feira. Dia de sentir saudade da (o) amante. Dia de pegar filmes na locadora e não assistir nem a metade. Dia da pipoca. Dia da pizza no jantar. Dia de xingar o Faustão. Dia de se entupir de antiácidos. Dia de ficar com "cara de domingo". Dia de ligar para os parentes distantes. Dia de implicar com o cachorro. Dia de se arrepender. Dia de achar que fez tudo errado. Dia de não poder enxergar sua cara no espelho. Dia de reclamar da solidão. Dia de reclamar do excesso de gente e de trabalho. Dia de fuçar no Orkut e no Facebook dos amigos e dos nem tanto. Dia de deletar e-mails que estão entupindo sua caixa de mensagens. Dia de ler os blogs, gostar ou não, mas não deixar nenhum comentário. Dia de missa, de culto, de meditação.
Ufa! Ainda bem que amanhã é segunda-feira!




sábado, 17 de fevereiro de 2018

VIAGEM DE TREM



                         Na minha infância, quando as estradas não eram nada boas, poucas famílias viajavam de carro. Os ônibus iam aos solavancos, levantando muita poeira, que entrava na cara da gente pelas janelas abertas. Isso quando não furava pneu, ou tinham que colocar correntes nas rodas para andar nas estradas de terra depois de muita chuva. Era uma maratona demorada e os enjoos eram frequentes pelo cheiro do óleo entrando pelas janelas.
                         Por tudo isso, bom mesmo era viajar de trem!
                         Começamos na velha Maria Fumaça, com bancos de madeira e o Chefe de Trem picotando os bilhetes com seu alicate. Os bancos viravam e as famílias podiam viajar uns de frente para os outros, embora não se recomendasse a viagem de costas para quem enjoava muito. As janelas podiam ser abertas e muitos imprudentes perderam os braços, ou foram arrancados de dentro do trem em alguma ponte por tentarem viajar olhando para fora.
                         Os restos das merendas, papéis e outros lixos eram jogados pela janela do trem e, às vezes, entravam numa janela mais atrás sujando as pessoas que admiravam a paisagem. Este, aliás, era um hábito muito comum e condenável. As pessoas jogavam lixo nas ruas, pelas janelas dos carros e as crianças descartavam os papéis de bala e de picolé no chão mesmo.
                         O apito e os rolos de fumaça da máquina eram festejados nas estações, onde não faltava o sino batido pelo Agente da Estação, que avisava da chegada do comboio e também da sua partida. Nas plataformas ficavam os parentes e amigos acenando até o trem desaparecer.
                        Depois veio o Minuano e o Pampeiro, mais confortáveis, mais rápidos, com assentos estofados e até carro restaurante. A velha Maria Fumaça foi substituída por locomotivas movidas a óleo diesel, até chegarem aos trens elétricos, nos quais não logrei ainda viajar. Por último chegou o Húngaro, que aprimorou mais ainda o interior dos vagões e sua eficiência. Nesse, meus filhos pequenos chegaram a viajar. Dessa forma, viajar de trem continuava sendo uma grande opção, mesmo depois que as estradas e os ônibus se modernizaram.
                       Havia ainda um vagão de leitos, onde os passageiros podiam viajar deitados em suas cabines. E um grande entroncamento de trens em Cacequi e Santa Maria, com trilhos e vagões, de carga e de passageiros, indo nas mais diversas direções. Ali, durante o tempo que os trens ficavam parados esperando autorização para seguir, subiam ambulantes vendendo de tudo um pouco, até mesmo relhos e rebenques. Era preciso muito planejamento para evitar acidentes. Nesse tempo, muitas famílias de ferroviários acompanhavam as linhas, tinham vilas e cooperativas e ostentavam com orgulho seus uniformes na cor caqui.
                          Lembro-me de muitas viagens, muitas histórias, desde bem pequena até já casada e com filhos. Entre os vagões, quando se passava de um ao outro, tinha toda aquela adrenalina do descompasso entre eles, parecendo que iam se descarrilar sob aquele piso se mexendo pra lá e pra cá. Embora fosse proibido, não tinha como resistir a dar uma paradinha ali, olhando para fora na portinhola baixa, numa aventura perigosa e emocionante, com o risco de ser atingido por uma faísca da máquina cuspindo fumaça.
                           Minha avó, que não gostava de pouca coisa, preparava uma cesta com tudo o de mais gostoso que sua cozinheira sabia fazer, um farnel de dar inveja à corte! Desde matambre recheado, frango a passarinho, doces cristalizados, sanduíches de tudo que é jeito, pastéis bem recheados, enfim, uma orgia gastronômica. As pessoas próximas ficavam babando pelos aromas da cesta da vovó e, mal o trem dava os primeiros solavancos, a gente já sentia uma fome repentina. E começava a festa!
                           Além do exagero de comida, minha querida avó também exagerava na bagagem. Como se não bastassem as pesadas malas de fole repletas de roupas e sapatos, ela levava ainda uma enorme chapeleira! E quem carregava tudo era o meu pai, que não era filho e sim genro, pois imagina se uma mulher ia se prestar para pegar malas, ainda mais sem rodinhas! Quando rememoro as cenas das nossas viagens, com três crianças e uma madame carregando o guarda-roupa inteiro, além das cestas de piquenique... dou ainda mais valor ao meu pai! Mesmo com esse trabalhão todo, passávamos vinte e um dias por verão nas estações de águas de Iraí, onde minha avó não repetia roupa no jantar e meu pai ainda estava sempre empolgado com a viagem, ajudando a fechar malas, carregando e se sentindo feliz no hotel com a gente.
                           Assim como os trens, que não se entende por que deixaram de transportar passageiros, os homens e mulheres também mudaram bastante, misturaram seus papéis, embaralharam tudo e não se sabe se isso foi bom ou ruim.
                          O que eu sei é que estão bem vivas na minha memória as lembranças das rodas de ferro nos trilhos, do apito nas curvas, do frenesi nas plataformas, da alegria de todos naquelas viagens memoráveis!



quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

APAGUE A LUZ!



                            Não se passa incólume pelas dores da vida.
                            A gente até resiste, suporta, mas as marcas ficam e a cobrança chega, mais cedo ou mais tarde.
                            Primeiro sofremos com a doença, depois com o efeito devastador dos remédios. Isso quando se trata de doenças comuns, sem maior gravidade.
                            Acordar com a cabeça latejando é um dos piores despertares. Tudo fica ainda mais difícil quando a rua acorda e os barulhos começam. Como podem fazer tantas coisas, falar alto, bater portas se ainda não consegui estancar essa dor? Como afastar esses pensamentos sombrios sobre as intermináveis coisas que esperam que eu faça?
                           Não sou exemplo de nada. Nem quero ser. Estou cansada e só queria uma casa na penumbra, silenciosa, vazia, onde eu pudesse respirar lentamente, sem relógios, sem telefone, sem campainha. Camas pela casa e o direito de deitar nelas sempre que quisesse, sem culpa. Um soro anestésico seria bem vindo... daqueles que produzem um sono artificial, no entanto profundo o suficiente para esquecer de tudo e de todos.
                            Aposentar a máscara do sorriso, as respostas mecânicas, os remédios para isso e para tirar o efeito disso, os silêncios compartilhados, o faz de conta.
                            Conversar com os mortos, com aqueles que fazem tanta falta e que faziam a diferença.
                            Viajar pelo mundo sem bilhete de volta, sem data marcada, sem roteiro predeterminado.
                            Esquecer as mazelas, sumir com os jornais, dar de ombros, virar as costas, fechar a porta e as janelas.
                            De repente, tudo ficou tão em vão... o bonito ficou feio, o importante desnecessário, supérfluo, sem valor algum. O dinheiro comprou as coisas, que deram mais incômodo que alegrias e acrescentaram tantos dissabores à alma que fizeram tudo ficar sem valor. Por que as pessoas desperdiçam tanto tempo e tanta energia fazendo obras, empreitadas, coisas que não levarão com elas nessa passagem efêmera por aqui?
                           Pra que tudo isso? Parem com tanto barulho! A vida está escondida numa fresta apenas, nas asas do beija-flor, na fumaça da vela, no silêncio, no escuro, na balbuciar da criança, no rosário.
                           Deixe-me em paz. E, por favor, apague a luz!


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

ESSA NÃO SOU EU



                     Tenho cada vez mais saudade de mim.
                     E não é só da juventude, do corpo certinho, das pernas ágeis.
                     Sinto saudade até de dois ou três anos atrás, quando a política, a corrupção e a violência não tinham nos invadido de forma tão bombástica; quando nosso país e, principalmente, nosso povo não nos envergonhava tanto diante do mundo.
                     Meu filho mais novo, meu anjo loiro hoje vive do outro lado do planeta, sem a menor vontade de voltar para um país que não valoriza quem trabalha, quem aprofunda seus conhecimentos e onde ninguém pode adquirir nada de valor sem precisar andar escondido. Sozinho, de madrugada, ele espera por trens e metrôs com a maior segurança, enquanto aqui falsos foliões depredam e saqueiam as estações todas nas noites de carnaval.
                   Tenho saudade dos doces que eu fazia, da fusão de ervas e temperos na minha cozinha onde hoje só recende o café. Quando foi que perdi a vontade de cozinhar? De tocar piano? Até de escrever? Como me deixei invadir assim por novas tristezas e contrariedades, sufocando quem eu sempre fui?
                     Há oito dias me sinto doente. Do corpo. Da mente faz mais tempo.
                     E como é difícil ter alguma inspiração quando perdemos a saúde!
                     Não sou paciente; no entanto, acho que dessa vez gastei a dose de paciência que tinha reservado para o ano todo. E como a gente precisa ter paciência com essas novas doenças e os novos tratamentos que só usam paliativos e mandam esperar...
                   Tenho saudade de mim saudável, questionadora, cozinheira, escritora, cheia de planos e de esperança.
                    Como ter esperança nesse país? Vendo os corruptos e ladrões do povo serem soltos por um mais corrupto ainda? Sabendo dos inocentes mortos diariamente por balas de bandidos? Conhecendo os candidatos a substituírem os maus e tão ruins quanto eles?
                     Queria meu filho de volta... daqui a pouco ele casa e fica de vez por lá... talvez eu tenha que atravessar o mundo para conhecer meu neto. Tudo tão diferente do que sonhei, do que vivi com os outros filhos. Mas como desejar que ele volte se aqui está tudo cada vez pior e se ele admira tanto a cultura e  a educação do povo onde está vivendo? Se nunca foi de baladas, de mulheres seminuas abaixando até o chão, de gente que fala aos gritos, que não respeita os idosos, que briga no trânsito, que fura filas e quer dar um jeitinho pra tudo? Meu coração que se aquiete e deixe que ele seja feliz por lá...
                      Queria ter vontade de fazer um doce de abóbora, uma maionese de bacalhau, uma canjica... agora vem Semana Santa , Páscoa e cadê vontade de cozinhar?! Sempre faltando um... e logo o que, sendo solteiro, ainda era mais meu.
                      Depois vem o aniversário dele e eu não poderei abraçá-lo, porque ninguém vai e volta ao Japão numa semana e isso é o máximo que a minha mãe aguenta sem mim.
                      Minha gripe se transformou em sinusite. Sinto um cheiro horrível dentro do nariz, uma coisa pavorosa. Se a minha mãe tivesse me dado o antibiótico que queria tudo isso poderia ter sido evitado. Mas não, hoje não se dá mais antibiótico para gripe... e só quem sofre é que sabe...
                     Saudades de mim... tanta!




segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

TANTO RISO, OH QUANTA ALEGRIA!



                Pré-jurássica que sou, pertenço ao grupo de pessoas (quase em extinção) que pulavam, brincavam o Carnaval durante quatro noites, usando uma fantasia para cada noite, destruindo os pés, bebendo um pouquinho a mais, namorando MUITO e tendo assunto com as amigas para vários meses. Éramos, enfim, participantes das festas de Momo e não meros espectadores.
              Hoje, como a maioria das pessoas, assisto ao Carnaval pela televisão. Isso até o sono chegar. É bonito, é colorido, ainda mais nesses novos aparelhos de TV em HD, mas não deixa de ser patético, ainda mais quando assistimos de pijama, bebericando uma água, um chá ou uma latinha de cerveja, de mau jeito no sofá, completamente desconectados da festa que passa diante de nossos olhos sonolentos.
             Com a violência das ruas, com a bandidagem à solta, com os pitboys loucos para esmurrar alguém, quem se atreve a sair para ver blocos ou escolas de samba "ao vivo"? Poucos.
             Sempre estranhei o fato de meus filhos não gostarem de Carnaval, visto que eu fui uma carnavalesca "de carteirinha" e sempre os levei aos bailes infantis do Casino, em Alegrete. Já naquela época eles preferiam catar serpentinas e confetes do chão, se molhar com as bisnagas de água do que pular, brincar no salão, andando em círculos como cachorro atrás do rabo. Hoje dou graças a Deus que eles prefiram surfar a se expor aos perigos da Folia, às tentações, às balas perdidas, às arruaças, às vinganças dos cornos de plantão, que expõem a mulher seminua como um troféu e depois ficam provocando cada incauto que ouse admirá-la.
               Carnaval é também sinônimo de arrependimento. Duvido que, ao final, o folião não tenha um rol de coisas que disse ou fez para arrepender-se. Até porque aquele frenesi não combina com medida, com cautela, com responsabilidade; o convite é mesmo para extravasar, extrapolar, viver como se fosse o dia do Juízo Final. Pena que, para os que sobreviverem, restarão vários juízos, de diferentes lados, para acusá-lo.
             Penso que Carnaval não tem idade, tem jovem que não gosta, tem velho que adora. Dessa forma, não terá sido meu ingresso nas "cinquentinhas" que me afastou dos salões e, sim, a decepção com eles, a invasão das drogas, as arruaças, as inconsequências e os inevitáveis arrependimentos.
               Hoje prefiro mergulhar na espuma branquinha do mar dos Ingleses, assistir aos desfiles só até cansar e, é claro, respeitar quem gosta, quem curte, quem se esbalda, quem se joga nesta festa que vem desde a Grécia antiga, com as festas de Baco - o deus do vinho - por ocasião da colheita da uva.
                 Bom Carnaval a todos, que cada um curta da maneira que melhor lhe aprouver!