sexta-feira, 15 de junho de 2018

- QUEM É DONA CONCEIÇÃO?!



          Ela nasceu há noventa e nove anos, numa cidade do interior gaúcho. Foi a primeira filha do casal, depois vieram dois irmãos, sendo que uma morreu ainda criança,  vítima de uma daquelas doenças infantis que eram incuráveis antes dos antibióticos e da penicilina.  Criou-se, portanto, na companhia de um único irmão.
          Conceição era mimadíssima pelo pai e não tanto pela mãe, que se frustrava com as discordâncias entre elas, em relação a quase tudo. A mãe era prendada, quituteira, vaidosa, exigente e ela só gostava mesmo era de brincar de bonecas e de ler. Declamava bem, escrevia muito bem, era brilhante na escola, vivia empetecada pela mãe, mas não curtia muito aquelas modas, aqueles enfeites, aquelas, segundo ela, futilidades. A mãe era pianista e ela achava uma tortura aquelas aulas de piano com um professor que furava seus dedos com a ponta fina do lápis quando ela errava.
           Com onze anos seu irmão foi para um colégio interno na capital, para construir seu futuro numa grande escola de Direito. E ela ficou como filha única, sempre entendida e desculpada pelo pai e cada vez mais diferente da mãe, que a amava, sem sombra de dúvida, mas não conseguia moldá-la do seu jeito.
             Baixa como a maioria da sua geração, Conceição não era gorda nem magra, tinha a pele clara e cabelos finos aloirados, emoldurando grandes olhos negros. Era uma jovem interessante, educada, culta e extremamente simpática. Apaixonou-se por um aviador doze anos mais velho e viveu com ele mais de cinquenta anos num casamento de verdade, com muito respeito, muito beijo na boca e muita cumplicidade. Ele já tinha uma filha que se somou aos três filhos do casal. Mãe amorosa, exigente nos estudos, confidente, amiga, Conceição era professora formada e trabalhava numa grande escola como Secretária, num tempo em que bem poucas mulheres trabalhavam e ela sequer tinha necessidade do salário, baixo como todos dessa profissão. Seu marido, assim como seu pai, valorizava muito o talento das mulheres, admirava as que iam além daquele papel destinado a elas nas famílias patriarcais. Sempre incentivou as filhas a fazerem o mesmo, jamais negando oportunidades a elas pelo fato de serem mulheres.
               Sua primeira grande dor foi a perda repentina e precoce do seu pai, seu maior amigo, deixando nela um ferida aberta pela vida toda e uma saudade imensa.
                Anos depois, a dor maior da perda do filho caçula, num crime inominável, rasgando a família ao meio, dilacerando pais e irmãos para sempre.
                Mais adiante, o marido herói, fortaleza de toda família, sai de uma cirurgia ocular desastrada cego para sempre. E ele só sabia ler, voar, consertar tudo que estivesse com defeito, derreter-se de amor pelas travessuras dos netos. Com pernas saudáveis, ficou imóvel, dependendo dos outros para tudo e resistiu o quando suportou aquela vida.
                  A mãe de Conceição, sem um diagnóstico preciso, parou de andar. E coube à filha assistir o marido cego, a mãe semi paralisada e os filhos morando longe, com profissões extenuantes bem distante dali, dependendo só dos empregados, que cobravam muito, exploravam outro tanto e nem sempre cumpriam seu papel.
                   Esta filha que escreve chegou a ter três empregos para conseguir colocar os filhos na Universidade Federal, pois os cursinhos eram caros e os cursos que eles desejavam muito concorridos. Com tanto trabalho, só dispunha das férias e de algum feriado maior para correr de ônibus os mil quilômetros e dar um auxílio para a mãe.
                    Primeiro foi a mãe que partiu, depois o marido e Conceição acabou sozinha naquele casarão enorme, onde deu a luz e criou todos os filhos e agora ocupava apenas seu quarto, mesmo assim, tão vazio... Logo veio a tristeza, o excesso de remédios e uma doença que devia se chamar solidão, ainda que vivesse cercada de empregados e de amigos da vida toda.
                     Foi então que a filha que morava mais distante foi buscá-la para perto, para o mesmo prédio, num apartamento que o pai, previdente, tinha comprado para o caso de um deles um dia precisar ficarem sob a proteção dessa filha. Não foi fácil para Conceição deixar sua terra, sua casa e seus amigos... No começo, foi bem difícil. Mas, aos poucos, a presença da família foi compensando as lacunas e ela voltou a sorrir com os netos e a se encantar com cada bisneto que nascia.
                    Ainda hoje só aceita ler jornais da sua terra, no entanto, reconhece que o clima nesta nova terra que a acolheu é bem mais ameno e, por alguma razão, não sente mais vontade de rever sua casa abandonada, quieta, silenciosa, à espera. Gosta de seu novo lar, com almoços barulhentos e a mesa cheia de crianças.
                   Ninguém vive 99 anos sem alguma deficiência. Principalmente quem já passou por tantas coisas na vida. Aos poucos, Conceição foi perdendo a audição e acabou usando aparelho auditivo, com o qual se adaptou muito bem. As carótidas um tanto obstruídas, labirintites recorrentes, tudo contribuiu para uma perda de equilíbrio que ocasionou várias quedas até ela reconhecer que precisava de um apoio, de um braço para segurar. Agora, para quem o único e maior prazer era a leitura – até altas madrugadas – a degeneração macular, com perda parcial de visão e impossibilidade de leitura foi crucial. Desse baque Conceição quase não se recuperou, pois os livros vinham compensando muito suas dores e suas saudades. Usou todo o tipo de lupas, até importadas e leu com elas o quanto conseguiu. Até que teve que desistir, pois a leitura não fluía mais. Essa falta só foi amenizada com a chegada de uma jovem leitora que lhe trouxe e lhe traz algumas horas de puro encanto diário, ouvindo suas leituras preferidas, seus jornais, passagens bíblicas, resumo das novelas e sempre um romance. A moça é Doutoranda e diz que aprende muito com ela, pois dona Conceição tem a sabedoria de muitos livros pela vida.
                    Conceição teria muitos motivos para ser amarga, triste, revoltada com a vida... mas não é! Tem sempre um sorriso para todos que se aproximam dela, reza por todos, se interessa por todos, adora um carinho, um abraço, um beijo, como aquela filha mimada do Eduardo Vargas e da dona Odith.
                    Conceição é bisavó da Amanda, do Lucas, da Bruna, da Alice, da Lívia e da Mariana. É avó apaixonada do Luciano, do Cristiano, do Rodrigo e do Kadu. Uma “boadrasta” da Yara e uma mãe incomparável do Tibério e minha. Sim, Conceição Vargas Ramos é minha mãe!
                   Como único comentário sobre seu aniversário, ela suspira e diz:
                   - O que será que me reserva esse novo ano, esses noventa e nove anos?!





terça-feira, 12 de junho de 2018

NAMOREM!


                       12 de junho.
                     Dia que se convencionou chamar “Dia dos Namorados”, não sei exatamente por que.
                 Acho conselho uma coisa muito chata, mas digamos que eu gostaria de transmitir aos namorados certa experiência que eu, por ser mais velha, já adquiri.
                       Namorar é a melhor coisa do mundo!
                  Namorar de verdade, derreter-se nos olhos do(a) amado(a), sentir frio na barriga, coração acelerado, beijos inacabáveis...
                  De um namoro apimentado e doce surge o altar, o juiz, as promessas, as alianças, os filhos. E tudo muda. Culpa da rotina, dos dois, da vida, de tudo. Mas muda.
                     Então, como comemorar esse dia sem falsidade, sem presentes vazios, sem jantares românticos com cada um mexendo no seu celular?
                       Meu conselho (não encontrei outra palavra) é que relembrem o que os atraiu lá atrás.
                       Certamente vocês não foram escolhidos pelas famílias ou destinados um ao outro por algum outro motivo.
                         Vocês não são milionários, nem modelos, tampouco famosos.
                        Vocês se interessaram um pelo outro, se atraíram, se completaram, tiveram inúmeros momentos felizes até que resolveram encarar a vida de mãos dadas.
                         Não é fácil. Não é fácil pra ninguém! São duas pessoas oriundas de famílias diferentes, criadas com rotina e valores diferentes, mas o sentimento que os uniu foi tão mais forte que superou obstáculos e diferenças.
                       Depois veio o melhor de tudo – os filhos. Lindos, amados, saudáveis, cheios de talento. Nem sempre fáceis, nem sempre tranquilos, mas um elo muito forte a unir aqueles namorados de outros tempos.
                       Conservem esse grande tesouro que a vida lhes deu e não virem nunca de costas um para o outro.. Olhem juntos para o futuro, de mãos dadas, na mesma direção.
                          Feliz Dia dos Namorados meu marido, meus filhos e meus amigos!
                          Namorem muito!
                          É o melhor da vida!



terça-feira, 29 de maio de 2018

E POR FALAR EM SAUDADE...

                                           Mais simples descrever a dor e a saudade dos outros...
                                       Mesmo assim, ver a Bruna chorar a cada vez que entra na casa da Bisa não está fácil. 
                                        Não ver mais o sorriso no rosto da minha mãe, que parece ter ficado mais velhinha de repente e, que embora sem exteriorizar, dá fundos suspiros de tempos em tempos...
                                         Ver meu filho sempre tristonho , dormindo mal, com a saudade gritando nos olhos...
                                          Olhar para o cantinho vazio da caminha dela...
                                          Para os potes da água e da comida empilhados num canto... 
                                          Para os outros cãezinhos passeando com seus donos... 
                                          E, principalmente, não ser mais recebida com a festa de sempre, com o rabinho curto abanando, com as patinhas pedindo carinho ... 
                                           Comer frutas perdeu a metade da graça se ela não está ao lado pedindo.
                                            O café da vovó, sempre partilhado, já não é o mesmo e ela suspira comendo os pedacinhos de pão e de queijo que costumava dividir com a companheirinha gulosa. 
                                            A gente não fala na Pitty, não recorda sua presença serena e amiga, por medo da Bisa passar mal... mas está doendo esta saudade e o pensamento vai lá trás e lembra das brincadeiras, da subida correndo na escadaria da igreja para correr livremente lá em cima, das vezes que foi para a praia e sempre uma excelente companhia, da mania de chegar bem pertinho do rosto da gente e cheirar, como para reconhecer bem cada dono.
                                            Como diz meu filho, pena que passa tão ligeiro!
                                            Nesta foto que encontrei e que não tem nem 10 anos, o banheiro já foi reformado, a Bruna cresceu muito, está quase uma mocinha (e agora prefere o celular do que os livros) e aquele pote vermelho no chão, em que os bigodes cinzas molhavam tudo cada vez que bebiam água, agora não tem mais serventia.
                                            Pitty, Pitoca... tá fazendo muita falta na vida e no coração da gente!
                                            Será que animais tem espírito?!
                                            Se tiverem, certamente ainda estás perto de nós, cuidando a vovó na sua poltrona, recebendo teu dono feliz da vida, acarinhando cada um de nós.
                                            Só o tempo, amiguinha, pra assoprar essa sombra de tristeza dos olhos da gente...
                                            O que nos consola é saber que não sofreste, mas bem podias ter esperado mais um pouquinho, pra deixar a vovó mais feliz no aniversário dela...


 

domingo, 27 de maio de 2018

ADEUS PITTY!

                    Sempre tivemos animais domésticos. Uns no pátio, outros dentro de casa.
Quando mudamos para apartamento demoramos um pouco mais para ter. Como eu trabalhava em dois empregos e os filhos passavam o dia na Universidade, achava judiaria deixar um bichinho sozinho em casa o dia todo.
                    Quando meu filho caçula saiu para fazer Mestrado no ITA e trabalhar na Embraer  a casa ficou mais sozinha. E o filho do meio resolveu comprar um cachorrinho para ver se me alegrava um pouco. Escolheu uma fêmea da raça schnauzer miniatura, cor de sal e pimenta e deu a ela o nome da sua roqueira favorita - Pitty.


                         Mesmo não sendo uma raça bem adequada às crianças, Pitty foi sempre um doce com meus netos. Nunca mordeu nenhum deles e olha que eles estavam sempre em volta dela.







 









                                Diferentes dos outros da sua raça, Pitty raramente latia. Muito amorosa, adorava um carinho! E muito gulosa, não podia ver ninguém comendo que já ia pedir.

                            
                             Passava os dias sentada ao lado da cadeira da Bisa e não gostava quando ela saía de casa, ficava esperando ela voltar impaciente.

                               Pitty fazia parte de família e estava sempre recebendo atenção e carinho de um e de outro.





                               Ontem seu coraçãozinho falhou. Os 14 anos pesaram e ela, assim de repente, passou mal e teve que ser levada com urgência para o hospital veterinário.
                                  

                                   Na madrugada partiu.
                                   Infelizmente sozinha, longe do nosso carinho... 
                                   Estamos todos sentindo uma falta imensa dela! 
                                   Pitty morreu como viveu... quietinha, sossegada, sem incomodar ninguém...
                                   Adeus amiguinha!
                                   Nunca te esqueceremos! 



 

segunda-feira, 21 de maio de 2018

MINHA VIAGEM AO JAPÃO - PARTE 5

Depois dos meus incidentes de hérnia de disco e crise de ciático estava andando só de carro.
Aqui, além de caminhar horrores, tem muitas escadas!

É o poder do amor! 
E a vontade de não desperdiçar esta oportunidade única.
É uma viagem muito longa para a gente deixar de se esforçar.




Na volta de Hiroshima, encontramos essa movimentada rua de comércio em Hiroshima.


Na chegada em casa, as bicicletas esperando seus donos na volta do trabalho.
De manhã, eles pedalam até a estação de terno e gravata e elas de saia e salto alto.
Inclusive, deixam as compras na bicicleta para pegarem na volta do trabalho.
E tudo fica lá, como eles deixaram. 


Em Nagoya também há ruas cobertas, de intenso comércio, com cafeterias e todo tipo de lanches, além de muitos souvenires.



Nesta rua, encontramos uma única cafeteria onde era permitido fumar.
O café era gostoso, a xícara um mimo, mas nosso olfato já não aceita mais o cheiro do alcatrão. Saímos correndo de lá.





Uma constatação.
Os japoneses usam pouco sal, pouco açúcar e poucos temperos na comida.
Os doces não são bem doces.
A comida sempre tem pouco sal.
E o arroz é cozido sem tempero algum.
Deve ajudar na longevidade deles.


Como em várias casa do Brasil, no Japão jamais se entra em casa ou nos templos com os sapatos que andou na rua (isso que as ruas são muito limpas).
As casas já possuem um lugar para troca de calçados.



Uma curiosidade:
Os japoneses levam seus bebês para todo lugar que vão. Talvez porque não existam empregadas e as mães parem de trabalhar quando os filhos nascem.
Sempre nos cangurus, colados ao corpo da mãe e sempre sem meias ou sapatos, com os pezinhos de fora.
E não nenhum usando chupeta!
Estranho é que os japoneses adultos têm geralmente os dentes muito desalinhados, mesmo assim.

Outra coisa que me chamou atenção foi não ver ninguém com tatuagens no corpo.
Soube que nem nos clubes ou academias aceitam alguém tatuado.
- Tatoo no!!!
Parece que por conta de uma tal facção perigosa que usa tatuagens para identificar seus membros...
Tatuadores no Japão morreriam de fome.



Mais um templo budista no centro da cidade.
Osu Kannon Temple.




  Nosso último passeio oficial no Japão foi no Nagoya City Science Museum.
Incrível tudo o que vimos lá!
Chamou a atenção a quantidade de crianças experimentando tudo, aprendendo leis da Física brincando, conhecendo elementos, muito conhecimento de forma lúdica.








 Chamou minha atenção a tabela periódica (tão difícil em Química), com todos os elementos representados, tornando concretas aquelas fórmulas que precisamos decorar sem nem imaginar como é cada substância ou material daqueles.

















No Planetário, infelizmente, tudo em japonês! 
Ficamos só vendo e tentando adivinhar o texto.
Um homem roncava alto ... infelizmente latino. 


No prédio do meu filho há uma biblioteca, inclusive com livros infantis.
Deixei o Nonô lá, pois há muitos engenheiros brasileiros residindo lá também.



Na viagem de volta, na conexão em Frankfurt entraram no avião muitos brasileiros, inclusive em grupos de viagem.
Lamentavelmente, nos sentimos de volta ao nosso país com a gritaria, a discussão em voz alta, a dificuldade de encontrar seus lugares e de entender os cardápios e o desrespeito ao sossego dos demais passageiros. Inclusive, vimos pessoas colocando as mantas e travesseiros do avião em sua bagagem de mão... 

Lembrei também de comentar que no Japão não existe fila para idosos, nem meia entrada para a terceira idade. Os velhos pedalam, sobem escadas, carregam sacolas e não querem ser discriminados, eu acho.

Outra coisa que notei é que os japoneses não usam o ar condicionado como aqui. A gente sentia muito calor, mas eles estavam sempre de casacos e nem trens, nem táxis nada anda com o ar ligado. E eles não suam!

Na TV , ao invés do futebol, muitos jogos de beisebol!


Quero agradecer aqui a esses companheiros de viagem, que fizeram tudo parecer e ser melhor ainda!



Um agradecimento a todos os amigos que viajaram junto, pelo Facebook, lendo e comentando meus relatos e, assim, me dando ânimo para chegar em casa exausta e ainda postar tudo o que vi naquele dia.

E um super MUITO OBRIGADA a esse filho maravilhoso, que abriu mão dos amigos e da única semana de folga do trabalho para passear com a mãe e o amigo Paulo por lugares que ele já conhecia, com paciência pelas nossas limitações físicas, com didatismo e entusiasmo, mesmo sabendo que os amigos da sua idade estavam em outros programas, certamente bem mais divertidos. 
Por ele tentamos aprender tudo mais depressa e ainda experimentar até onde deu a culinária japonesa, com paladar tão diferente. 
Obrigada filho querido! Foste um cicerone e um anfitrião maravilhoso!





 Não poderei estar presente no seu aniversário, mas deixei meu presente para ele, uma figueira, que há de lhe fazer companhia e testemunhar diariamente o meu amor.