domingo, 19 de novembro de 2017

GATO E RATO



                           Vivia num eterno escorregar, escapulir, driblar. Conformando-se, resignando-se, pollyanamente procurando o lado B, a saída, o alívio. Volta e meia se deparava com sinais difíceis de compreender, como os números repetidos que teimavam em aparecer no relógio digital, na tela do telefone celular, no computador. Diziam que era normal, que acontecia com todo mundo, mas a ela não parecia comum acordar sempre às 2:22, ou às 4:44. Não podia ser coincidência sempre encontrar um 11:11 ou 17:17 quando consultava o celular para algum compromisso.  Mais impressionante era o fato de que a esses episódios sempre se seguia uma notícia ruim, uma desavença, um achaque.
                          Sua rotina costumava ser constantemente quebrada por razões alheias, sua vida não lhe pertencia e, sem ter conseguido se diplomar em nada, parecia que tinha Pós-graduação em assistência social, tal o volume de tarefas e pedidos que a cercavam. Pau para toda obra, ombro amigo, socorro familiar, saco de pancadas, tudo isso a definia muito bem. Perdera a juventude e a escassa beleza a serviço dos outros e agora amargava a decrepitude ainda socorrendo um e outro, sem a menor vocação, prazer algum, por uma imposição da própria vida.
                             Nos raros momentos seus, refugiava-se no prazer secreto dos livros, dos romances açucarados. Mesmo sem grandes estudos, gostava das palavras e da sensualidade que as frases formavam ao juntá-las. Lendo, sonhava pela mão de outrem. Nunca tivera amores tão reais, tão cheios de vida como aqueles dos romances. Nas incursões pelas redes sociais, encontrava antigos amores, reais e platônicos, sempre sorridentes e bem acompanhados, viajando pelo mundo, desfrutando uma vida que ela só via mesmo na tela do computador. No começo, se deslumbrava com as paisagens e os relatos dos viajantes, depois concluía que olhava para tudo como se fosse míope, distante, desfocado, artificial. Onde seus pés não pisaram, suas mãos não tocaram, só valia o relato, a imaginação de quem os descrevera, e isso era muito pouco para ela.
                            Não fora sempre assim. Até os insetos possuem uma vida secreta e com ela não fora diferente. Durante a invasão hormonal, suspirara em muitas camas, cometera excessos pecaminosos, grudara no corpo suores masculinos e gozos memoráveis em camas nem sempre limpas, em horários inusitados, com homens que nunca seriam seus. Momentos que só valiam enquanto duravam, mas que possuíam uma intensidade incomparavelmente maior que a da sua triste vida cotidiana. Sentir era mais importante do que viver e nesses momentos fugazes ela sentia e se reconhecia. Com a boca amarga da bebida barata, o corpo dolorido das orgias sexuais, a cabeça explodindo pelo excesso de álcool, ela voltava para casa e se penitenciava limpando, cuidando, prometendo não repetir o que lhe dava prazer, promessas essas que tinham apenas a duração da ressaca.
                              Quando um sol enlouquecido arrancava as pessoas de seus esconderijos, ela corria ao templo mais próximo, para ouvir o silêncio, um silêncio tão profundo que dava para escutar até as pedras dos altares respirando. Sob a face contrita, de joelhos diante dos santos, escondia-se uma doidivanas assim que as luzes da noite se acendiam e que se via num outro mundo, protegida pelo anonimato, em companhias tão aventureiras como ela, ávidas por descobrir o fascínio do submundo e a desafiar seus perigos. Assim que a lua saltava sobre os telhados e principiavam a serem ouvidas as vozes da noite, a beleza escassa era fartamente suprida pelo arrebatamento, pela entrega, pela intensidade com que se apoderava do mundo nos raros momentos de liberdade e o proibido, o pecaminoso, dava ainda mais sabor às transgressões e ao gozo. Não que só ali ela fosse inteira, porque suas duas faces, embora antagônicas, eram bem reais. Acontece que seu lado devota enchia-lhe de uma culpa difícil de suportar, precisando ser amenizada com muitas doses da cuba libre barata, com rum ordinário, em copo de plástico. Já que certamente iria para o Inferno, então que queimasse de desejo e de prazer enquanto pudesse.
                               Nesse tempo, não haviam números repetidos, nem telas onde consultá-los. Era sempre hora de apressar a chegada da noite para escapulir, enganar a supervisão, ousar, desafiar os perigos, viver intensa e perigosamente. O futuro a Deus pertence e Ele certamente estaria lhe reservando uma expiação à altura dos seus pecados, ainda que só fizesse mal a si mesma. E muito bem também.
                               O tempo passou e levou a juventude com ele. Os parceiros foram rareando, construindo seus caminhos e ela foi murchando, juntando os cacos, num arrependimento tardio e incólume pelas alegrias que tivera, arrastando culpas pesadas que, somadas aos novos encargos, deixavam-na cada vez mais velha, mais cansada, menos viva. Uma sensação de estranhamento que não lhe permitia se reconhecer em nenhum papel, todos inadequados, desconfortáveis, supérfluos. Como nunca descobrira em si qualidades que atraíssem alguém, nunca pudera acreditar que alguém se sentisse atraído por ela. Nem simpatia, nem compaixão, só recebera desdém das pessoas e mesmo desprezo de algumas.
                               Esquecera-se de sorrir e mais suspirava que falava. Desenvolvia seus incontáveis afazeres como parte da expiação de suas culpas e só encontrava algum alento na leitura de romances e nas redes sociais, onde não escrevia uma só palavra, mas vivia a vida dos outros. Foi aí que as aparições de números repetidos começaram.
                             Aconselhada por uma amiga, resolveu consultar um vidente, que lhe afirmou serem esses números avisos de algum espírito, para se preparar que algo de ruim iria acontecer. E sempre acontecia. E eram sempre coisas desagradáveis. Mas por que o tal espírito não desviava os acontecimentos, então? De que adiantava avisar?
                              Aos poucos, sua visão foi escurecendo, as dores nas costas aumentando e nem as histórias e poemas de amor conseguiam melhorar seus dias.  Cansou de ver gente sorrindo na tela do computador, viagens para lugares que nem sonhava existir, feitas pelos outros, crianças maravilhosas que ela jamais conhecera, correntes e orações para desconhecidos, receitas de comidas para almoços familiares, totalmente inadequadas à sua solidão. E, assim, desistiu também das redes sociais. Um sentimento indefinível tomava conta dela, um misto de tédio, humilhação e fadiga. Não queria mais imaginar a vida alheia, aquela monotonia de sorrisos já não a satisfazia e tudo voltava sempre ao ponto de partida, ao encontro amargo consigo mesma e com toda a aridez do seu caminho.
                                Exaurida de dores e achaques, enxergando pouco e mal, seus dias passaram a ser uma contagem regressiva para um despertar em outra dimensão, onde faria tudo diferente, encontraria pessoas queridas, investiria mais na sua própria vida. Não era forte, nem nobre o suficiente para a resignação. Mesmo não tendo quem a ouvisse, queixava-se. E se indignava com a ingratidão humana. Já não tinha mais ânimo de fugir e ser perseguida pelos fantasmas do passado e pelas decepções do presente. Parecia que sua alma estava cansada da vida.
                              Uma vez que já não podia ajudar muito, que seus olhos cansados e a saúde frágil não lhe permitiam mais carregar o mundo nas costas, foi ficando de lado, esquecida, desconsiderada, tratada como um brinquedo quebrado, com a bateria gasta. A ninguém interessavam suas horas pobres, pequenos sossegos ou ilusões. Numa sensação absurda e justa reparou, num relâmpago íntimo, que não era nada. Não sabia pensar, nem sentir, nem querer, nem sonhar direito soubera. Sua alma era fraca, sem entusiasmo natural, forjada em ruínas e desistências.
                             Presa à cama, entrevada e quase cega, ela reviveu todos os momentos que compuseram o mosaico da sua triste vida. Na suavidade do momento derradeiro, gostaria de ser uma figura estética, como uma pintura num quadro – mas nem isso era.  Ainda bem que não podia ver o próprio rosto, tampouco fitar seus olhos. Melhor assim. Como um leque que se abre, ela foi descortinando os momentos esfuziantes de sua pobre vida, fútil vida, desperdiçada existência. E outra vez se vê cantando, dançando, sentindo prazer. Num delírio benfazejo, volta a sentir aquela perturbação intensa que bloqueia a razão diante do ser amado, aqueles calafrios, os batimentos acelerados, as mãos úmidas na antessala do beijo, o desfalecimento, a entrega.  E se encanta, tripudia, rodopia, fica tonta de prazer e de uma alegria inusitada e premonitória.
                             Depois, os aromas da noite entram-lhe na alma como um nevoeiro que a conduzirá para um sono cheio de eternidade. A febre é benfazeja porque induz aos devaneios e ao esquecimento de tudo o que não fora, da sua incompetência total para a vida. Lembra-se de ter lido num romance que nesse mundo somos apenas passageiros, viajando de dia para dia, de estação para estação no comboio do destino. As luzes vão se apagando, a vida sucumbindo e ela, finalmente, exibe um sorriso no rosto marcado pelo tempo. Tudo o que dorme é criança de novo e assim, entre sombras, ela visualiza o rádio relógio com seus números grandes, antes de se entregar ao sono profundo.
                             Ele marcava 3:33. 





Dia da Bandeira

                             Minha amiga Shirley é cabeleireira e uma grande leitora.
                             Passo todos os livros que leio para ela.
                             Agora ela está lendo "Ravensbruck" , sobre o maior campo de concentração feminino.
                            Comentando no salão foi surpreendida com uma velha cliente que contou ter estado presente no final da guerra.
                            Ela e o marido são alemães e tinham vindo para o Brasil em busca de trabalho. Aqui casaram e tiveram 5 filhos. Estavam ricos.
                            Foram passear na Europa e tiveram seus passaportes confiscados por serem alemães puros, os quais Hitler queria para purificar a raça.
                            Quando a guerra acabou, os russos entraram vitoriosos, saqueando e estuprando as moças nas casas.
                           A mãe dela distribuiu Gillettes às filhas e combinaram que cortariam os pulsos antes de serem violentadas.
                           Dois enormes soldados invadiram a casa e a mãe conseguiu lhes dar muita bebida, até que caíssem e fossem arrastados para uma vala fora de casa.
                           No dia seguinte foi a vez de um oficial russo, cheio de medalhas.
                           A mãe implorou, falando no Brasil, na América do Sul e foram só as palavras que ele entendeu.
                           Disse a ela, então, que colocasse uma bandeira do Brasil pendurada do lado de fora da casa para proteger a sua família.
                          Ela rasgou um vestido verde, costurou um blusa amarela no meio, escreveu BRASIL bem grande e pendurou do lado de fora da casa.
                          Nunca mais foram molestados e ainda conseguiram passaportes para voltar ao Brasil. Sem nada, só com a roupa do corpo, mas livres e seguros.
                          Achei uma boa história para contar no Dia da Bandeira.




quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A SAGA DOS ESCRITORES INDEPENDENTES NO MERCADO EDITORIAL BRASILEIRO



                            Agradecendo o convite e a confiança de Milton Pantaleão Júnior, filho do meu dileto amigo Milton Pantaleão, vou compartilhar aqui um pouco da minha experiência como escritora independente de catorze livros solo, além da participação em mais de cinquenta Antologias.
                            Escritores independentes compõem uma nova tendência no mercado editorial brasileiro, saturado de autores estrangeiros e meia dúzia de nacionais – sempre os mesmos – que vendem bastante porque as grandes editoras investem neles. Investem na distribuição de suas obras, ou conseguem incentivos e parcerias com órgãos públicos e/ou privados.
                           Inclusive nos grandes concursos, que trazem visibilidade, prêmios e publicações, os vencedores acabam sendo quase sempre os mesmos, já conhecidos do público. Não há investimento ou oportunidades para novos escritores.
                          As grandes editoras alegam que os escritores independentes fazem uma tiragem pequena, porque sai caro, e isso dificulta a distribuição em larga escala. Sendo assim, o escritor tem dificuldade de fazer seu livro chegar ao leitor.  Além disso, o preço unitário de livros produzidos em menor quantidade não é competitivo com os balaios de livros oferecidos nas Feiras, com preços reduzidíssimos, porque mal traduzidos e impressos aos milhares. Esses livros, mesmo vendidos a cinco ou dez reais apenas, ainda trazem lucro para as editoras.
                         A distribuição é crucial! Algumas livrarias até aceitam comercializar seus livros, mas eles ficam escondidos, colocados  de lombada nas prateleiras, nunca são expostos com destaque e os leitores raramente chegam a vê-los.
                         No Brasil, já foi comprovado por pesquisas sérias que 44% da população não lê e 30% nunca comprou um livro! E que as mulheres leem mais do que os homens.
                        Os meios digitais auxiliam a exposição dos novos autores e muitos livros são oferecidos e comercializados nas redes sociais. Nesse caso, o escritor deve acrescentar às suas funções a de empacotador e distribuidor, enfrentando filas nos Correios, pagando taxas para que seus livros cheguem a quem se interessou por eles.  Depois, o retorno, quase sempre muito positivo, comprova que sua obra poderia ser apreciada por uma camada bem maior da população, caso o mercado editorial não fosse fechado e injusto como é.
                         A falta de ousadia do mercado editorial tradicional e das mega livrarias são responsáveis pela atual crise e falência do ramo. O público quer novidades!
                         Feiras do Livro e, sobretudo, Feiras Independentes são importantes vitrines para os novos autores. Não há como classificar um autor sem que ele chegue a ser testado pelo público leitor. Só assim ele poderá ser julgado e a função do mercado editorial deveria ser a de intermediar esse contato.
                           Um escritor 100% independente escreve, revisa, edita, paga e distribui seu livro. Eu não me considero totalmente independente, porque publico através da Editora Alternativa, numa parceria que tem dado muito certo. Pago as edições e as ilustrações dos livros infantis do meu bolso e cabe também a mim vender os livros para tentar reaver pelo menos parte do investimento, possibilitando novas edições e novos livros.
                          Depois de meses trabalhando num livro, às vezes anos, conseguimos mandá-lo para edição, juntamos as economias para fazer o pagamento e recebemos caixas cheias de livros ocupando bastante espaço na casa. Olhamos para elas e pensamos: - E agora?
                           Mesmo sabendo que nossos livros são bons, que o trabalho foi bem feito temos que ficar oferecendo e insistindo nas redes sociais para que os leitores cheguem a conhecer e possam desfrutar de algo que sabemos que tem qualidade.
                          Não é fácil vender livros no Brasil!
                          Para muitas pessoas, dinheiro gasto em livros é dinheiro “jogado fora”. Alguns compram para agradar o autor e não leem. Nesse caso, melhor ler emprestado do que comprar e não ler. Outros, não apreciam receber presentes de livros e dão qualquer quinquilharia para as crianças, que logo serão deixadas de lado, ao invés de procurar incentivar a leitura desde cedo, com presentes bem mais duradouros e enriquecedores.
                           Meia dúzia de escritores nesse país consegue sobreviver da sua escritura. A grande maioria escreve porque gosta, porque precisa, porque se expressa melhor por escrito. Mas faz isso nas horas vagas, sabendo que não terá retorno financeiro, ao contrário, seu saldo bancário diminuirá a cada livro publicado.
                           Sem um centavo de lucro, por exemplo, consigo vender meus livros infantis a R$ 15,00. Compare com um daqueles de R$ 5,00 nas Feiras. Grandes, coloridos, bem ilustrados, mas sem enredo algum. Conte as histórias de ambos para as crianças e ouça a opinião delas.
                           Quem escolhe e distribui – em larga escala – livros para as escolas raramente dá esta oportunidade a um novo autor brasileiro. Serão sempre os mesmos nacionais, ou os tantos traduzidos. A criança é conquistada pela capa, pelo tamanho do livro e das ilustrações e seus genitores e professores pelo preço. Só.
                          Hoje, o poder das grandes editoras está sendo questionado e o leitor não quer mais ler apenas o que elas decidirem que é bom, ou que deve ser lido.
                          O autor, através das mídias digitais, está conseguindo chegar ao leitor e o retorno tem sido muito positivo.
                         Existem leitores para os BONS LIVROS de escritores independentes! No entanto, há que ter capricho, cuidado e revisão nesses livros, não deixando que a ansiedade de publicar diminua a qualidade do produto final.
                         É mais fácil o autor ter uma boa relação com uma editora pequena do que com uma grande, para quem os novos autores não são nada, porque não têm retorno garantido.
                           Resumindo, os escritores independentes podem ser comparados a feiras de produtos orgânicos, aos trabalhos artesanais, aos pequenos produtores. E Feiras do Livro independentes são vitrines adequadas para a aproximação do escritor com o leitor.
                           “Quem não é visto, não é lembrado.”
                            Se as livrarias grandes, médias e pequenas proporcionassem um espaço adequado às obras dos escritores independentes.
                            Se  as escolas privilegiassem os livros dos autores nacionais ainda pouco divulgados nas suas aulas e bibliotecas.
                            Se em todos os bairros houvesse livrarias próximas às casas das pessoas.
                             Se os shoppings centers, supermercados, cafeterias, lojas de conveniência, aeroportos, rodoviárias concordassem em expor livros de autores brasileiros menos conhecidos.
                             Certamente os escritores independentes poderiam fazer chegar aos lares brasileiros uma literatura nova, arejada, com as cores da nossa cultura, com o sabor do nosso povo, com as belezas do nosso país.
                            Não desanimemos, portanto! Com trabalho e perseverança vamos alargando esse mercado editorial e conquistando nosso lugar nele.
                           Fé e força escritores!





domingo, 22 de outubro de 2017

OXENTE BOLSHOI !




                         Sempre amei tudo que fosse relacionado a balé! Obviamente, tenho a maior admiração pelo Bolshoi, a melhor ou uma das melhores companhias de dança do mundo! Assisto a seus espetáculos em filmes, clipes, na internet, na TV, onde consigo, porque me encanto com a perfeição de seus bailarinos.
                        Não sei se por minha influência, tenho duas netas que já começam a dançar. Uma ainda iniciando, mas já apaixonada pelas sapatilhas e a outra num nível intermediário, desenvolvendo coreografias mais elaboradas e manifestando claramente sua inclinação para a dança.
                         Bruna tem nove anos, faz balé desde um pouco antes dos três e já faz algum tempo que só fala em chegar aos nove para poder participar da seleção dos novos bailarinos para a Escola Bolshoi do Brasil, aqui pertinho, em Joinville. Fomos tratando o assunto como algo distante, só que nesse ano ela fechou questão e conseguiu que a mãe a inscrevesse. Diante das suas apresentações, sempre tão perfeita, tão graciosa, tão exata, estávamos receosos que ela fosse mesmo aprovada e causasse um rebuliço completo na vida da família e nos trabalhos dos pais, porque, sendo filha única, eles não abririam mão de acompanhá-la para todos os lugares. A expectativa era de que ela se saísse bem, demonstrasse toda a graça e correção que nos acostumamos a ver em suas apresentações e depois os assuntos práticos seriam debatidos e solucionados, desde que ela se sentisse realizada e feliz.
                           No mês que antecedeu a seleção, Bruna praticamente dançou os dias inteiros, por conta própria, criando coreografias, realizando saltos e passos, enchendo de sonhos e piruetas suas pequenas sapatilhas cor de rosa. Sua professora de balé e a família sempre tentando colocar um pouco de realidade em suas fantasias, para que ela não ficasse muito decepcionada caso não fosse uma das escolhidas. Mas qual o quê! Ela tinha certeza de que conseguiria passar aos avaliadores toda sua paixão e seu sonho de flutuar na ponta dos pés.
                            Escolheu os melhores collants, os enfeites do coque, as sapatilhas da sorte e partiu, na companhia dos pais e dos avós, para o primeiro desafio da sua vidinha. Cheia de sonhos, olhos brilhando, curiosidade, ansiedade, deslumbramento diante do prédio imponente, cercado de fotos gigantescas de seus melhores bailarinos. Difícil dormir na véspera... fácil de acordar muito cedo, nenhuma reclamação na hora do coque bem puxado, sem nenhum fio de cabelo solto, costas retas, barriga pra dentro, queixo alto... ela entrou pisando firme, como um toureiro entra na arena certo da vitória, a ponto de outras meninas olharem para ela com um misto de admiração e respeito, com a marca de forte candidata impressa em seus passos firmes e seu olhar decidido. Sem fome, sem sede, sem vontade de ir ao banheiro nem de puxar conversa, a pequena enfrentou a fila sem sorriso, sem papo, de olho na porta que a conduziria para a primeira sala onde os incontáveis testes teriam início.
                            Aqui abro um parêntese para relatar o que nós vimos do lado de fora, o que ouvimos, o que presenciamos, porque desde que a pequena entra por aquela tal porta, não sabemos mais nada dela pelas cinco horas seguintes. Isso não nos foi avisado, não deram a menor previsão, só apontando o portão por onde eles sairiam e que os familiares deveriam estar ali, a postos, para receber as crianças. Sem almoço, portanto, porque os testes duraram das 10h da manhã às 15h para os que foram mais analisados, durante mais tempo. Nesse portão, a torcida era para que a criança não saísse, uma vez que os mais fracos eram eliminados rapidamente. Bruna foi das últimas a deixar a escola, embora não tenha recebido nenhuma avaliação ou classificação por escrito.
                             Para quem não conhece esse universo das seleções para a Escola Bolshoi, vou relatar alguns fatos.
                            O curso completo tem a duração de oito anos. A seleção para o início do curso abrange crianças de 9 a 12 anos. E é sobre essa apenas que posso me referir, pois a dos maiores é diferente, parece que eles enviam um vídeo com suas performances para serem pré-selecionados e depois fazem o teste na escola.
                            O que poucos sabem (nós não sabíamos) é que para a seleção dos menores não é preciso que a criança tenha feito uma aula sequer de balé, não precisa ter colocado uma sapatilha e nem saiba o nome de nenhuma das posições.  Eles procuram apenas uma ANATOMIA adequada a seu método de ensino, uma massa de modelar que eles possam trabalhar de acordo com seus objetivos, portanto, a seleção não depende de nenhum esforço ou talento da criança, mas tão somente das suas características físicas, ósseas e musculares. Portanto, pode fazer aulas de balé desde a mais tenra idade, se seus ligamentos não se alongarem como eles desejam, esquece!


                               A seleção acontece mais ou menos assim. Uma equipe da escola vai a todas as regiões do Brasil pré-selecionando e depois esses selecionados se inscrevem para essa etapa decisiva em Joinville. Escolas públicas da cidade também recebem essa pré-seleção e os pais são convidados a levar os filhos na data marcada, ainda que jamais tenham chegado perto de uma sapatilha, ou não façam ideia de como prender os cabelos num coque. Os demais (como no caso da Bruna) se inscrevem no site da escola, enviando documentos, pagando uma taxa e dando referências das escolas de balé onde estudou (não sei por que).
                              De hora em hora filas imensas são formadas, com as crianças selecionadas para aquele horário. Isso durante dois dias, até sair a primeira classificação. E os pais plantados diante do portão, sem saber a que horas os filhos sairão, sem absolutamente nenhuma notícia deles. 


                             O sotaque predominante é o nordestino, porque eles são maioria absoluta. Depois os nortistas e muitos do centro-oeste também. Raros do Sul e do Sudeste. Famílias inteiras, até com recém-nascidos, lotam ônibus e viajam muito tempo para trazer a criança pré-selecionada. Um desfile de modas, cores, penteados, sacolas, malas, burburinho, poucos bancos para sentar, escadarias cheias de gente buscando um pouco de descanso para as pernas, marmitas, merendas, cenas que na nossa imaginação não se realizariam diante de uma escola de balé, onde nos acostumamos a ver luxo, fantasias, performances
                           Conversando com várias famílias, me deparei com a determinação de largar tudo e vir para Joinville acompanhar a filha ou o filho, caso aprovado, enfrentando o frio a que não estão acostumados, morando mal, tendo que arranjar algum emprego, enfim, determinados a mudar radicalmente de vida, crentes de que o filho bailarino iria recompensá-los e até manter a família com seu futuro. Em resumo, não tinham quase nada a perder e muito a ganhar com a mudança.


                           Crianças mal vestidas, com os coques mais esdrúxulos já vistos, esperando para vestir uma roupa emprestada pela escola e que tinha que passar de um para outro, mas contando com a única sorte que poderiam ter: a de ter nascido com ligamentos longos, flexíveis, ossos retos, bem encaixados, que possibilitassem à escola moldá-los segundo suas necessidades e objetivos.




                         Cada escola tem o direito de ter suas linhas de ação e trabalho. Mas tem, também, o dever de divulgá-las com clareza, para que não se criem falsas expectativas e que nem se formem aquelas filas intermináveis, numa multidão de todos os naipes, quando o resultado dos tais e famosos testes poderiam ser divulgados com base numa radiografia, numa tomografia e apenas um teste de flexibilidade. 


                            Bruna passou por incontáveis provas durante 5h. Foi medida, pesada, escrutinada em cada ossinho, cada músculo, mas não dançou!


                            Não pode rodopiar lindamente, bem ao ritmo de qualquer música como faz muito bem. Nem pode criar suas coreografias com os passos que aprendeu em vários anos de barra e sapatilha.


                           Saiu exausta, com cara de vitoriosa, já que, segundo ela, recebeu muitos elogios dos avaliadores. Ela mal conseguia caminhar, morta de fome cansaço e foi carregada no colo pelo pai até se recompor.


                        Ela tem noções de flauta e de piano, canta no Coral da escola há vários anos, faz balé há mais de seis anos, escreve histórias e peças que ela mesma representa, mas nada disso contou. Talvez sua perna precisasse levantar mais um pouco, ainda que esteja trabalhando firme nisso.  Porque flexibilidade já nasce com a pessoa, mas os outros talentos precisam ser adquiridos.
                      E deveriam ser valorizados! 


                          Não foi fácil conformar a Bruna, enxugar suas lágrimas e soluços, ver a luz dos seus olhinhos se apagarem diante da decepção. Ela não conseguia acreditar que, pela primeira vez, alguém não tivesse achado que ela era uma linda bailarina. As palavras não encontravam eco na sua tristeza, não conformavam seu coraçãozinho choroso e foi preciso muito carinho, muito beijo, muito abraço para ela voltar a sorrir.
                        Quando finalmente respiramos aliviados diante da aparente normalidade, ela lascou:

                        - No ano que vem a gente tenta de novo!