segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

ADEUS GLOBO!



Meu pai comprou a primeira TV na Copa do Mundo de 1970. Ele sempre foi contra modernidades. Deve ter sido dos últimos a comprar o primeiro fogão a gás e nem chegou a experimentar o computador e o forno de micro-ondas. Era um homem inteligente, culto, aviador, mas nem um pouco inclinado à tecnologia doméstica.
Antes de termos nosso próprio aparelho, eu e minha mãe assistimos às novelas “Direito de nascer” e “Nino, o italianinho” na TV da vizinha. Jantávamos e corríamos para lá, maravilhadas. Nem lembro se era Tupi, ou Globo, mas era o único canal que pegava um pouquinho, sem cor e com bastantes chuviscos, que um Bombril na ponta da antena amenizava. Tempos depois tivemos uma repetidora na cidade vizinha, o que melhorou um pouco a qualidade do “semblante e do sotaque”.
Já donos do nosso próprio aparelho, meu pai nunca mais perdeu o Jornal Nacional e uma novela de época. Cid Moreira e Sérgio Chapelin eram nossos companheiros de todos os jantares. Eles traziam o Brasil e um pouco do mundo para nossa casa e confiávamos piamente em tudo o que eles anunciavam. Se passava na Globo, a gente podia acreditar.
Criei meus filhos com o “Sítio do Pica-pau amarelo”, com as manhãs da “Xuxa” e as noites com Chico Anísio, Jô Soares, Agildo Ribeiro e vários programas leves e divertidos para a as famílias poderem assistir juntas antes de dormir.
De uns tempos para cá, imagino que após a morte de Roberto Marinho, a Globo começou a mudar e a eleger como público alvo a contravenção, o analfabetismo, a indecência. E as novelas degringolaram, os filmes se tornaram poços de sangue e violência, os programas de auditório ofensivos para as famílias e o jornalismo tendencioso ao extremo, sem a isenção saudável e necessária aos bons profissionais da notícia.
Eis que hoje assistimos os âncoras dos telejornais da Globo com cara de deboche (William Bonner), os apresentadores às gargalhadas no palco (Tadeu Schmidt) diante de notícias ofensivas a uma grande parcela da população, quando não fazendo discursos políticos no ar (Fausto Silva e Fernanda Lima), num desrespeito absoluto com o telespectador que pensa diferente, valendo-se da câmera e do microfone para tripudiar sobre milhões de brasileiros ávidos por mudança, por desenvolvimento, por honestidade, por patriotismo.
Dizem que a Globo sonega impostos e deve muito aos cofres públicos. E que sua revolta com o novo Governo é porque ele diz que vai cobrar. O fato é que os governos anteriores saquearam o povo, roubaram bilhões, se locupletaram de todo jeito e nunca foram ameaçados ou ironizados por essa emissora que, lamentavelmente, perdeu toda credibilidade com o povo que a consagrou, optando por uma parcela da população que antigamente a menosprezava e hoje deita e rola nos seus programas tipo C ou D.
Assim, quarenta e nove anos depois de começar a assistir a Globo, hoje me vejo obrigada, compelida a trocar de canal, porque, para mim, televisão é notícia e entretenimento e a Globo hoje não me traz a notícia isenta que eu espero e seus programas só conseguem me revoltar pela imoralidade e pela violência.
Lamento por alguns atores talentosos que deixarei de ver, por alguns jornalistas como Sandra Annenberg e Heraldo Pereira, no entanto, não posso mais dormir indignada, revoltada, enojada com um jornalismo torpe e tendencioso, que vai contra 57 milhões de brasileiros que apostaram na Esperança.
Aguentei até ontem, até aquele quadro do Fantástico que ridiculariza nossa Fé e nossa torcida por um Brasil muito melhor. Não dá mais! Abandono a Globo e continuo torcendo pelo meu país, pela volta de tudo o que fomos perdendo de valores, muito por influência da Globo  nos lares menos estruturados.
A Globo passa e o Brasil fica!


terça-feira, 22 de janeiro de 2019

MINHA FILHA MAIS VELHA


Do meu ventre nasceram três filhos homens. Que são a luz, a essência e o motivo maior da minha existência.
Meus tantos alunos (numa média de 300 ao ano por 30 anos) foram também um pouco meus filhos, com muitos deles mantenho um apego e um aconchego materno até hoje.
Meus netos são filhos com açúcar e cuido deles com o maior zelo e dedicação.
Agora tenho uma filha, a mais velha de todos, quase centenária na verdade e que ainda chamo de “Mãe”. É sobre ela que quero falar hoje.
Ela tem 99 anos. Isso mesmo. 99 anos e meio! E é diferente de todas as idosas que já vi na vida. Sente calor, veste saias, vestidos, bermudas e blusas de mangas curtas e decotes o verão inteiro. Toma, diariamente, um banho de chuveiro, outro de creme e outro de perfume. Dorme tarde e não janta antes da 20h30min. Nos finais de semana exige um cálice pequeno de Amarula antes do almoço e prefere sempre os bombons com licor. Gosta da mesa cheia, com muitas crianças em volta, começa a refeição sempre com uma sopa de legumes e come sozinha, de tudo um pouco, sem dispensar a sobremesa e o chá. Prefere ouvir notícias a novelas e também os jogos do seu time de futebol. É gentil com todas as pessoas e adora abraços, beijos, carinhos. Reza bastante e diz que sonha muito com gente que já morreu (quase todos os seus amigos).
Minha mãe é completamente lúcida e recém sua memória começou a encurtar um pouco. Uma lucidez benfazeja, mas que maltrata um pouco pelo descompasso com as limitações físicas da idade. Nesse ponto é que ela vai se tornando mais minha filha, embora ainda seja o meu carinho maior como mãe.
Graças ao meu pai, ela tem uma pensão que lhe permite ser muito bem cuidada, com tudo que precisa e deseja. Ele a amava tanto que deve ficar feliz ao ver que sua amada realmente desfruta de tudo o que pode melhorar sua qualidade de vida, minimizando tanto quanto possível suas deficiências.
Mesmo assim, não foi fácil percorrer todos os oftalmologistas da cidade tentando fazê-la enxergar e encomendando lupas do mundo inteiro, já que a leitura sempre foi essencial na sua vida e ela não se conformava de não poder mais ler. O diagnóstico de degeneração macular foi um golpe terrível e logo contratei uma leitora para tentar minimizar essa perda, lendo para ela 4 horas por dia, desde a Bíblia, os jornais e um romance por vez. Bem nessa época tive ruptura de retina e não pude continuar desempenhando essa função. Muitas horas de lamentação, muita tristeza permearam nossas conversas e nosso tempo juntas. E novamente  a sensação de impotência que já tinha sentido quando meu pai perdeu a visão e minha avó parou de caminhar.
Depois foi a audição que principiou a diminuir... exames, testes, lamentos, irritação... e a difícil adaptação ao aparelho auditivo, com trocas constantes de pilha e muita contrariedade. E lá estava eu levando aos exames, fazendo moldes, pedindo paciência, contornando as desavenças com as cuidadoras, exigindo profissionalismo, pagando por todos os extras (de graça elas não dão nem bom-dia).
Quando os movimentos se tornaram mais difíceis, foi a hora de colocar corrimões na casa toda, muitas barras de apoio nos banheiros e, mesmo assim, ela sofreu quedas assustadoras que, felizmente, não tiveram maiores consequências. Pelo menos para ela, porque passei maus bocados acudindo. Então, ela teve que aceitar alguém sempre ao seu lado, o que ocasionou muitas querelas. Minha missão de pacificadora aumentou bastante.
Depois de alguns tombos feios, foi preciso adicionar ao aparato uma cadeira de banho... que ficou encostada por meses já que, segundo ela, parecia com cadeira de rodas e ela se recusava a sentar. Muitas cadeiras comuns foram destruídas sob o chuveiro até que ela se resignou, sempre com aquela tristeza de ter perdido mais uma batalha.
Moro no primeiro andar e minha mãe/filha no térreo. Ela subia as escadas para todas as comemorações e almoços dominicais. Ouvia-me tocar piano, falava com o neto do Japão pelo computador e gostava de mudar de ares. Até que não conseguiu mais subir e eu tive que transferir minha cozinha para a casa dela nos encontros familiares. Porque meus filhos, noras e netos não admitem nenhum encontro da família em que ela não esteja junto. Nem eu.
Quando a distância para o banheiro ficou longa e os remédios para dormir deixavam o corpo mole, foi a vez da introdução da fralda noturna. Não sem antes haver resistência e mais algumas quedas no banheiro. Meu poder de pacificação e convencimento novamente foi requerido e consegui, pesarosa também, que ela admitisse usar mais aquele aparato.
Há pouco tempo suas pernas falharam e ela não conseguiu mais caminhar. Momento de tristeza imensa, depressão, tentativas frustradas com o fisioterapeuta de anos e a aceitação mais difícil de todas – a da cadeira de rodas. Lágrimas, revolta, desânimo... e, mais uma vez, a sensação de impotência diante do que eu não conseguia mudar.
Para cuidar bem dela temos quase uma microempresa. E não é nada fácil administrar horários, características, temperamentos, salários de tanta gente... é bem desgastante! Uma hérnia de disco e o compromisso de ser babá dos netos não me impede de cuidar dessa filha mais velha bem de perto, mas me limita em alguns gestos. Já sou da terceira idade também e carrego compras, frutas, remédios como um jovem menino de recados, pois tudo que suas funcionárias exigem é sempre “pra ontem”.
Quase não saio, não viajo, nem à praia vou, mas passo muitas horas por dia ao lado da poltrona dessa filha, que sempre tem histórias para recordar, perguntas a fazer, reclamações ou pedidos. Conto para ela tudo de interessante que vejo nas redes sociais, recados e beijos que os amigos lhe mandam, fofocas da política, enfim, aproveito sua lucidez para interagir com ela.
Minha filha requer toda minha atenção, no entanto, quem ganha mais com isso sou eu, que tenho ao meu lado a pessoa que mais me ama no mundo e que jamais seria contra mim em nada. Sempre tivemos temperamentos muito diferentes e, por isso mesmo, discordamos em muitas coisas. Sou mais parecida com meu pai em muitos aspectos e aprecio a paz, o sossego, tudo o que propicia ler e escrever com profundidade. Já ela gosta de agitação, de barulho, de gente em volta e, quando podia, quase não parava em casa. Eu sou caseira, adoro arrumar gavetas, organizar coisas e minha mãe sempre foi a rainha da bagunça, salva pelas tantas auxiliares que sempre teve.
Acho que minha mãe até que aceitou muitas mudanças no mundo, demais até para uma pessoa vivenciar, talvez por ser adaptável, por gostar de gente jovem e por nunca se sentir velha. Nessas horas também ela é mais minha filha do que minha mãe, porque muitas vezes me sinto mais velha que ela.
Quando assistimos aos telejornais ela fica indignada. Diz que os outros países só mostram o que têm de bom e que o Brasil só mostra os fracassos, os erros, as coisas ruins. Diz que tem certeza de que existe muita gente boa no Brasil fazendo coisas maravilhosas e que a TV e os jornais nunca mostram isso, concluindo que é por isso que o brasileiro não tem autoestima e sempre se acha pior que os outros.
De uma família de políticos, do PTB, do PSD e do UDN, lamenta que as ideologias já não possam conviver e acha que a retidão dos militares será  benéfica para reorganizar o Brasil.
Minha filha mais velha não gosta de falar em morte, é bem reservada quanto a seus questionamentos e suas dores, prefere sempre se interessar pelos jovens e pelas crianças da família, que são sua vitamina maior.
Dia a dia sinto sua voz mais fraquinha, seu sorriso mais raro, suas despedidas mais demoradas. Claro que sofro com isso.... e estou sempre procurando minimizar seus desconfortos, alegrar seus dias, atender seus pedidos. Ela sempre foi a minha confidente, mas hoje em dia evito levar problemas aos seus ouvidos cansados, porque ela fica muito impressionada com tudo, dorme mal e não lhe faz bem.
Volta e meia ela diz que nunca imaginou viver até os 100 anos... e convida as pessoas que a visitam para sua festa. Ainda bem!






terça-feira, 1 de janeiro de 2019

PARA QUEM GOSTA DE HISTÓRIA DO BRASIL

Num dia em que a Esperança dos brasileiros foi renovada e inicia mais um governo republicano e democrático, vale a pena recordar:


• Quando D. Pedro II do Brasil subiu ao trono, em 1840, 92% da população brasileira era analfabeta.
Em seu último ano de reinado, em 1889, essa porcentagem era de 56%, devido ao seu grande incentivo à educação, à construção de faculdades e, principalmente, de inúmeras escolas, que tinham como modelo o excelente Colégio Pedro II.
• A Imperatriz Teresa Cristina cozinhava as próprias refeições diárias da família imperial apenas com a ajuda de uma empregada (paga com o salário de Pedro II).
• (1880) O Brasil era a 4º economia do Mundo e o 9º maior Império da história.
• (1860-1889) A média do crescimento econômico foi de 8,81% ao ano.
• (1880) Eram 14 impostos, atualmente são 98.
• (1850-1889) A média da inflação foi de 1,08% ao ano.
• (1880) A moeda brasileira tinha o mesmo valor do dólar e da libra esterlina.
• (1880) O Brasil tinha a segunda maior e melhor marinha do Mundo, perdendo apenas para a da Inglaterra.
• (1860-1889) O Brasil foi o primeiro país da América Latina e o segundo no Mundo a ter ensino especial para deficientes auditivos e deficientes visuais.
• (1880) O Brasil foi o maior construtor de estradas de ferro do Mundo, com mais de 26 mil km.
• A imprensa era livre tanto para pregar o ideal republicano, quanto para falar mal do nosso Imperador.
"Diplomatas europeus e outros observadores estranhavam a liberdade dos jornais brasileiros" , conta o historiador José Murilo de Carvalho.
Mesmo diante desses ataques, D. Pedro II se colocava contra a censura. "Imprensa se combate com imprensa", dizia.
• O Maestro e Compositor Carlos Gomes, de “O Guarani” foi sustentado por Pedro II até atingir grande sucesso mundial.
• Pedro II mandou acabar com a guarda chamada Dragões da Independência por achar desperdício de dinheiro público. Com a república a guarda voltou a existir.
• Em 1887, Pedro II recebeu os diplomas honorários de Botânica e Astronomia pela Universidade de Cambridge.
• D. Pedro II falava 23 idiomas, sendo que 17 era fluente.
• A primeira tradução do clássico árabe “Mil e uma noites” foi feita por D. Pedro II, do árabe arcaico para o português do Brasil.
• D. Pedro II doava 50% de sua dotação anual para instituições de caridade e incentivos para educação com ênfase nas ciências e artes.
• Pedro II fez um empréstimo pessoal a um banco europeu para comprar a fazenda que abrange hoje o Parque Nacional da Tijuca. Em uma época que ninguém pensava em ecologia ou desmatamento, Pedro II mandou reflorestar toda a grande fazenda de café com mata atlântica nativa.
• A mídia ridicularizava a figura de Pedro II por usar roupas extremamente simples, e o descaso no cuidado e manutenção dos palácios da Quinta da Boa Vista e Petrópolis. Pedro II não admitia tirar dinheiro do governo para tais futilidades. Alvo de charges quase diárias nos jornais, mantinha a total liberdade de expressão e nenhuma censura.
• D. Pedro II era um Grande Templário amigo pessoal de Don Antonio de Sousa Fontes 50º Grão Mestre da OSMTH Magnum Magisterium
• D. Pedro II andava pelas ruas de Paris em seu exílio sempre com um saco de veludo ao bolso com um pouco de areia da praia de Copacabana. Foi enterrado com ele. Foi o que “roubou” do Brasil!
Fonte: Biblioteca Nacional RJ, IMS RJ, Diário de Pedro II, Acervo Museu Imperial de Petrópolis RJ, IHGB, FGV, Museu Nacional RJ, Bibliografia de José Murilo de Carvalho
 
 

domingo, 30 de dezembro de 2018

MINHA RETROSPECTIVA 2018

                    Olhar pra trás.
                    Nem sempre é bom, todavia, para se construir uma retrospectiva de um período, faz-se necessário.
                     Nesse ano, nosso país se perdeu nas mãos de maus administradores e pessoas profundamente desonestas. Perdemos o orgulho de sermos brasileiros e nos vimos amedrontados pela violência crescente e pelos desmandos de toda ordem. O ponto positivo foi a Polícia Federal ter conseguido destampar a panela fétida da corrupção e mostrar ao povo quem são os safados, os ladrões, os corruptos. Prendeu muitos deles, embora certo Ministro tenha o mau hábito de libertá-los... Cabe à PF, inclusive, a distinção de ser uma das únicas instituições que ainda mantém credibilidade nesse país devassado pelos malfeitores.
                     A natureza andou revoltada com o descaso do homem, com o excesso de lixo, com o desmatamento irresponsável e resolver assustar. Tempestades, furacões, vulcões, ressacas mostraram a nossa pequenez diante das catástrofes naturais.
Alguns líderes internacionais, de países poderosos, perderam o bom senso e a cautela e colocam em risco a paz mundial. Além disso, o fanatismo religioso continua vitimando inocentes.
                     O câncer se espalha descontroladamente, causado, quem sabe, pelos hábitos de vida poucos saudáveis, pela poluição, pela contaminação do ar e dos alimentos. Muitas famílias choram e se preocupam com essa doença terrível.
                     Os valores estão sendo postos em cheque num país que não incentiva a leitura, que não apresenta às crianças a boa música, que fomenta o erotismo nas crianças e jovens e que quer se dizer moderno quando tenta abolir todas as leis, toda a moral, todo o respeito por si próprio e pelo outro. Um país que não respeita os professores, que menospreza os idosos, que explora os aposentados, que mata os policiais que defendem a população e onde armas e drogas constituem a argamassa dos morros e favelas.
                       Infelizmente, chegamos ao ponto do cidadão de bem ficar preso em casa, enquanto os malfeitores desfilam soltos e fortemente armados por onde querem. Um lugar onde nosso salário não pode comprar coisas boas e bonitas e, quando pode, não pode ostentá-las por conta da cobiça da bandidagem. Um lugar onde as crianças já não podem andar um quarteirão sequer sozinhas e são assustadas em casa desde pequenas, para que aprendam a se proteger e defender.
                        Esse é o Brasil de 2018.
                        Mas não só esse. Existe ainda outro. Um país onde pessoas fazem trabalho voluntário nos asilos e nos hospitais. Gente que se dispõe a cozinhar e distribuir alimentos para moradores de rua. Professores que dão aulas gratuitas a jovens carentes que tentam acessar a Universidade, escritores que doam livros para bibliotecas e escolas sem recursos, procurando alargar os horizontes e formar cidadãos. Gente boa que trabalha no campo produzindo alimentos. E ainda há muitos que procuram praticar o bem.
                        Meu ano pessoal foi bom, porque tivemos saúde, tivemos união e, mesmo o único pedacinho da família que se encontra circunstancialmente desgarrado, se fez presente aqui neste final de ano, enchendo de alegria nosso coração saudoso.
                        O ponto alto do meu ano foi, sem dúvida, ter recebido a Comenda Oswaldo Aranha,lá no meu Alegrete, onde vivi e revivi os melhores anos e as maiores emoções da minha vida e pude desfrutar de um reconhecimento que costuma ser apenas póstumo. Posso assegurar que, com vida e saúde, tudo fica ainda muito mais valioso!
                         Na Feira do Livro de Porto Alegre lancei mais um livro, que agora somam catorze, sem contar as dezenas de Antologias em que tive a honra de participar.  Coube-me, também, falar sobre a saga dos escritores independentes, o que me deu bastante satisfação por se tratar de um assunto que conheço e vivencio anualmente. Meus livros nunca se pagam, sempre arco com um déficit previsível e assim será até que eu possa fazê-lo. Recebi prêmios importantes em concursos, inclusive minha estrelinha LUME foi premiada no Rio de Janeiro e reconhecida no Museu de Astronomia, o que não é pouca coisa.
                         Completei sessenta e seis anos, tenho uma mãe admirável de noventa e nove, três filhos que são para mim o suprassumo da minha existência, cinco netos maravilhosos, um marido companheiro, irmãos inteligentes, noras dedicadas, sobrinhos amorosos, enfim, muito mais a agradecer do que a pedir. E a chegada da Mariana foi o ponto alto desse inverno.
                           depois de uma eleição presidencial tumultuada, a maioria do povo brasileiro conseguiu eleger seu representante, mesmo que tenham tentado matá-lo no meio do percurso e nele e no seu governo que inicia com o ano depositamos muita esperança de dias melhores, onde a honestidade, a Ordem e o Progresso voltem a ser a tônica do nosso país.
                         Tenho também uma memória seletiva que me protege e me livra de colocar fermento em coisas ruins.
                         Graças a Deus!
                         E que venha 2019!
 
 
 
 

domingo, 23 de dezembro de 2018

TRIBUTO AO DADINHO


Achei que nunca conseguiria escrever sobre isso. Porque doía só de pensar. Mas ele não merece ser esquecido, ou desconhecido das novas gerações da família. Então, mesmo que precise usar sangue e lágrimas para colocar a dor em palavras, pretendo relatar uma história triste demais de um menino amado demais e inesquecível para nós e para seus amigos.
A data escolhida é 23 de dezembro, porque foi o dia em que ele nasceu e encheu nossa família de encanto. Eu tinha apenas 4 anos, mas lembro perfeitamente de tudo e do quanto eu o amei e protegi, como se meu filho fosse.
Seu nome era Eduardo, em homenagem ao avô materno. Clarinho, de cabelos encaracolados, um olhar vivo e doce, muito esperto e falante, obteve a maior pontuação dos irmãos nos testes de QI da escola. Alfabetizou-se em tempo recorde, não era de brigas, gostava mesmo era de desenhar e de representar.
 Na garagem de casa montou um palco e ali encenava suas peças nas noites de verão. Colocava bancos e cadeiras no largo e longo corredor da entrada da garagem para os vizinhos assistirem, montava o cenário, escrevia as peças, criava os figurinos e representava. Até seu gato participava do elenco.
Nas festas da escola sempre se destacava, tirava notas excelentes, era bom aluno, respeitoso, amigo e os professores achavam que ele tinha uma inteligência acima da média.
Eu cuidava dele em casa, na rua, na escola, porque nos dávamos muito bem e ele era quase um filho para mim.
Assim Dadinho foi crescendo...
E cercando-se de novos amigos, com novos hábitos. Meninos da sociedade, filhos de famílias conhecidas, naqueles anos 70 bem complicados para a juventude.
De repente, ele apareceu fumando, como a maioria dos jovens daquela época.
O irmão mais velho foi estudar na capital, a irmã (eu) casou e saiu de casa e Dadinho ficou com os pais e a avó materna no casarão da família. Um pai bem mais velho que não podia sequer imaginar os perigos que esses meninos estavam correndo, quando começaram a aparecer as drogas e as famílias não tinham ideia de como prevenir e aconselhar seus filhos.
No dia em que completava 15 anos, Dadinho não chegava para a festa. Tinha ido nadar no Tênis Clube à tarde, os amigos da família começavam a chegar e nada do aniversariante. De repente ele chegou, mas chegou diferente.  Agitado, esquisito, a ponto de meus pais chamarem o médico da família para examiná-lo. E assim, no dia dos seus quinze anos, meus pais receberam a primeira bomba de muitas outras – Dadinho tinha usado drogas.
Daí em diante foi um cuidar, proibir, fiscalizar, aconselhar, consultar, levar a médico e psicólogos até na capital e a paz estava definitivamente extinta da família. Meu pai levantava várias vezes durante a noite para ver se ele não estava descoberto no inverno, dava conselho e, de outro lado, os tais amigos chegavam a levar drogas e sprays escondido para ele, quando ele não saía.
Aqueles três velhos toleraram rocks no volume máximo, cabelos compridos, roupas esquisitas e até reuniões dançantes com luz negra na ampla varanda – coisa inadmissível para a criação conservadora que tivemos. Tudo para ver se Dadinho se curava.
Meu filho mais velho tinha um ano e era com ele que Dadinho mais interagia, corria no pátio, deixava mexer nos seus discos, permitia que entrasse no seu quarto todo decorado com motivos de bandas de rock e dos Secos&Molhados. Luciano era louco por ele, se agarrava nos seus cabelos crespos para não cair e rodopiava com o “titio” pelos canteiros da praça quando o encontrávamos. Para fazê-lo estudar para as provas finais, quando seus resultados na escola começaram a diminuir, sua condição era que eu fizesse as perguntas enquanto ele corria com o sobrinho no carrinho em volta dos canteiros do nosso jardim. E o guri adorava!
Nos bailes e carnavais Dadinho era o último a chegar em casa e caminhava no telhado, carregava a lenha de um pátio para o outro, enfim, não tinha sono e uma excitação que hoje sabemos que as drogas dão.
Um dia, ele apareceu no meu apartamento pedindo minha máquina fotográfica emprestada, porque queria fazer umas fotos. Ele estava com dezessete anos e sempre fora muito artístico; além disso, continuava sendo o meu mimoso e eu emprestei. Só não podia imaginar que seria a última vez que eu o veria...
Ele vendeu o toca-disco novo, o melhor casaco, pegou apenas uma mochila e sumiu. Disse que iria viajar pelo mundo como mochileiro. O que nós não sabíamos era que seu companheiro seria um traficante argentino, de nome Raúl Fernando Horácio, que tinha sido apresentado a ele por um dos seus novos amigos e companheiros de drogas.
Começou então nosso calvário. O Brasil ficou pequeno de tanta gente a procurá-lo. Polícia, Maçonaria, Lions, Rotary, amigos, parentes, conhecidos (infelizmente ainda não havia redes sociais) e nenhuma notícia do Dadinho. Aliás, a maldade humana é ilimitada e recebemos muitas pistas falsas, gente que jurava tê-lo visto no Nordeste, na Argentina e em muitos outros lugares. E nada.
Soubemos depois que nosso menino só chegou até Porto Alegre, onde moravam nossos dois irmãos mais velhos. Hospedou-se com o traficante num hotelzinho barato da Voluntários da Pátria e no dia seguinte já tinha sido roubado pelo bandido. Sentiu a barra pesada e avisou no hotel que iria embora procurar seus irmãos. O bandido tinha saído, quando chegou e recebeu o recado correu atrás dele, pegou-o por trás e cortou seu pescoço com uma navalha. Ainda roubou a câmera fotográfica que eu havia emprestado e onde talvez tivessem fotos comprometedoras. Chovia muito e ele jogou meu irmão numa vala de uma construção, onde ele acabou morrendo por asfixia mecânica. Foi encontrado pelos operários e levado ao IML como desconhecido.
Enquanto isso, nós o procurávamos desesperados pelo Brasil e pelos países vizinhos. Nenhum dos seus amigos quis fornecer nenhuma pista do bandido, os mesmos amigos que levavam drogas para ele e o apresentaram ao traficante, fugiam de nós na rua.
Em dois dias acabou a aventura pelo mundo de um menino talentoso, engraçado, amoroso, insubstituível e inesquecível.
Como uma das piores histórias da tragédia grega, o encontro com o corpo do Dadinho não poderia ter sido mais trágico. Quase um mês mais tarde,  nosso irmão Tibério, jornalista da Zero Hora na época, foi encarregado de ir ao IML fotografar alguns corpos naquelas gavetas refrigeradas, que seriam enterrados como indigentes caso não aparecesse ninguém para identificá-los. Foi ele que encontrou o irmão caçula. Da pior forma possível.
Naquela noite, eu tinha chegado na aula da faculdade de Letras e escrito no quadro, em letras garrafais: “Pau que nasce torto morro torto, eu não sou pau, posso me regenerar.” É uma letra de música e é claro que eu me referia ao meu irmãozinho. Momentos depois recebi a notícia que ele tinha sido encontrado... morto.
Nunca esquecerei meu pai me encontrando de braços para cima e gritando desesperado no meio da rua. Minha mãe estava na minha casa cuidando do meu filho e eu não consigo nem lembrar quem e como deram a notícia para ela. Sei que a vizinha ficou cuidando do Luciano e que a casa dos meus pais começou a encher de gente naquela noite gelada de inverno, num julho de 1974. Lembro que acenderam a lareira e o fogão à lenha, que alguém fez e serviu café, mas não sei se fui eu. Sei que minha mãe e minha tia Ada estavam deitadas na cama dela, chorando muito, tomando remédios e eu deitei no chão num cantinho do quarto e não conseguia respirar direito, achei que ia morrer sufocada, pois o ar não chegava aos meus pulmões. Ninguém se lembrou de me dar um remedinho, pois eu era jovem e apenas irmã, mas a minha dor era de mãe.
Recordo, até hoje indignada, uma amiga da minha mãe dizendo: “Te consola amiga, podia ser pior”. Mas pior como????
Soube que meu irmão mais velho quase chegou desidratado a Alegrete, acompanhando o carro fúnebre desde Porto Alegre. E que meu pai foi esperar na entrada da cidade, no meio da rodovia e disse aos brados: “- Ah, meu filho, voltaste deste jeito”! O caixão estava lacrado e nunca vimos Dadinho morto, a não ser por algumas fotografias da Polícia.
Talvez por isso eu sempre tivesse tido uma esperançazinha lá no fundo de que ele fosse aparecer. Luciano gritava “Titio” para todos os cabeludos que via e eu diversas vezes me enganei com alguns também.
Meus pais pediram que eu desmontasse o quarto dele, tirasse os pôsteres, achando que a dor diminuiria, mas foi em vão. Mudaram de casa, se desfizeram de móveis grandes, ficaram mal acomodados numa casinha alugada e a dor foi junto.
O traficante argentino passou um tempo preso e depois foi solto. Anos depois andava assaltando cofres de hotéis no Rio de Janeiro.
Meu pai branqueou todo o cabelo num mês.
Minha avó quase morreu na noite depois do enterro, passou muito mal.
E eu tive a certeza de que nunca mais seríamos completamente felizes. E não fomos.
Meu marido tinha saído do quartel, onde era Oficial R2 e estava tentando entrar para o Quadro Complementar da Marinha. Tínhamos vendido até o carro e eu engravidei. Sonhei que o Dadinho voltaria para a nossa família num filho meu. A época não era adequada, pois Coutinho passou o ano todo no Rio de Janeiro no Curso Preparatório e eu passei a gravidez sozinha, com um filho de dois anos e os pais chorando dia e noite.
Se Cristiano é ou não a reencarnação do meu irmão eu não tenho certeza, os espíritas afirmam isso, mas eu sou católica e sempre fico na dúvida. O fato é que o nascimento dele trouxe novo alento a uma família devastada. É fato também que ele chorou muito tempo à tardinha, na hora aproximada que o Dadinho morreu. Um choro inconsolável, sem razão e que só foi parando com o tempo. É fato também que ele vivia com problema de garganta, quase operou, e o seu Amâncio, famoso espírita de Alegrete e grande amigo, me mandou uma carta pedindo que eu esperasse até os 7 anos dele, que tudo isso ia passar, que eram resquícios de uma reencarnação prematura. O fato é que esperei e que depois dos 7 anos ele nunca mais teve problema de garganta.
Cristiano tem uma banda de rock, toca guitarra e pinta muito bem. Não tem nenhum vício, é bem teatral, mas faz imitações apenas para o grupo familiar. É um filho e um pai maravilhoso!
No meu filho caçula quis colocar o nome Eduardo, mas minha avó não deixou, dizia que não tinha dado sorte. Então juntei o nome do pai dele e ficou Carlos Eduardo. Para evitar o mesmo apelido, eu o chamei de Kadu logo após o nascimento.
Esta foi a trajetória de um menino que viveu apenas dezessete anos, mas que nunca foi, nem será esquecido por nós.
Eu devia isso a ele.
Não foi fácil escrever, precisei parar muitas vezes e até aumentar o remédio da pressão, mas tirei do peito um cadeado que me prendia  há mais de quarenta anos.
Agora posso esperar o Natal mais leve.
Hoje Dadinho estaria completando 62 anos. Como ele seria? Teria filhos? Netos? Para nós será sempre aquele jovem alto, magro, de cabelos compridos, bolsa de couro no ombro, olhos doces, riso aberto.
Talvez minha total incompetência para criar finais felizes nos meus contos se deva um pouco a esse episódio cruel e marcante da minha vida.
Talvez.