domingo, 7 de novembro de 2010

FAZER 58 ANOS

             
         Fazer 58 anos é, antes de mais nada, ter construído caminhos e atalhos, desmanchado armadilhas, carregado pedras, cruzado rios para chegar até aqui.


        É relembrar cada momento, principalmente os bons, da jornada e espiar, com certa curiosidade, o que vem pela frente.

       60 é uma data redonda, emblemática, todavia significa apenas dois anos a mais que os 58 e dez menos que os 70. Não vejo razão para que seja mais festejado do que qualquer outra data, a não ser quando o relacionamos às benesses da aposentadoria, do passe livre, do estacionamento preferencial, da fila dos idosos e até a volta da meia entrada no cinema.

       Completar 58 anos significa também que temos menos pedidos pessoais a fazer na hora de apagar a vela do bolo e mais conjuntos, daqueles que abrangem toda a família. Nossa individualidade, aliás, está cada vez menos nítida, envolvida por vários rostos e problemas múltiplos.

      Já não esperamos milagres dos cremes, já não nos jogamos de cabeça em dietas suicidas, já não cronometramos o tempo de exposição ao sol para um bronzeado uniforme, já nos resignamos aos maiôs inteiros, aos números a mais no manequim e achamos mais graça em pular onda com os pequenos e tomar muito sorvete do que ficar na praia como “porco no rolete” suando em bicas num sol inclemente.

      Aos 58 deveríamos ser mais pacientes, mais tolerantes, todavia nossa personalidade ainda está em pleno vigor, portanto, isso dependerá de cada um. O que acontece com maior frequência é que deixamos de supervalorizar coisas pequenas, pois hoje já sabemos que não vale a pena tanto incômodo, já que a resolução desses problemas do dia-a-dia geralmente é bem mais simples do que os jovens supõem.

      Com essa idade, os vícios vão sendo substituídos por remédios e o travesseiro passa a ter espinhos, as noites encurtam, as madrugadas começam mais cedo, pelo menos para os que ainda não tomam nenhum tipo de “sossega leão”.

      Nesta fase da vida parece que já não conseguimos ter grandes desejos, grandes frustrações, grandes expectativas. É tudo mais ameno, menos apaixonado, menos caloroso, a gente gosta mais do que “a-do-ra!”. Nem grandes arroubos, nem tantas decepções. Parece que a adrenalina sumiu das nossas veias, ou só aparece nos sustos. As mulheres, nesta idade, além de amadas, precisam se sentir “desejadas”. É muito importante para sua auto-estima e para seu desempenho numa relação a dois.

        É comum que se tenha mais paciência com os filhos, mais ternura por eles e um carinho infinito por nossos pais, caso ainda os tenhamos ao lado.

        É certo que temos muito mais paciência com os netos, com suas travessuras e até com as primeiras demonstrações de gênio ou teimosia. O que nos irritava nos filhos nos faz sorrir diante dos netos, porque vemos aquele serzinho ainda tão novo, tão inexperiente achando que já sabe tudo e pode tudo também.

         As pessoas desta idade costumam olhar bastante para o passado, mais ainda depois que se aposentam e lhes sobra tempo para folhear os álbuns de fotografias. Muitas voltam a trabalhar para não saírem da vida ativa, para não perderem os colegas, para não se sentirem vazias. Outras aproveitam para fazer aquela infinidade de coisas para as quais nunca tinham tempo e não saíam da sua lista de prioridades.

        De minha parte, optei por ajudar a criar minha netinha e ainda não cheguei na fase de reler os livros preferidos, porque não dou conta de ler tanta coisa boa que os escritores do mundo inteiro continuam produzindo. A novidade é a leitura dos blogs, uma meia dúzia deles que me dá gosto visitar e ler.

        Como tudo na vida, há exceções a este padrão de cinquentinhas, que estão a caminho das sessentinhas, mas continuam adoráveis!

        Algumas delas, como a presidente eleita do Brasil, que já passou dos sessenta, certamente pouco se preocupam com o passado, uma vez que tem o futuro à frente. Assim acontece também com aquelas mulheres que ocupam cargos importantes e desempenham funções significativas e reconhecidas pela sociedade. Para essas o passado ainda não tem muita relevância.

        Da mesma forma, outro tipo de mulheres hiper-recauchutadas e entupidas de hormônios desfilam num corpinho de trinta, badalando nas noites e namorando homens bem mais jovens, driblando assim seus aniversários.

         Infelizmente, tanto umas quanto outras são exceções.

        Eu não fujo ao padrão. Sempre quis exercer plenamente meu matriarcado e chego aos cinquenta e oito anos com saúde, graças a Deus, com uma mãe lúcida e amorosa aqui pertinho, um marido compreensivo, filhos ma-ra-vi-lho-sos e netos es-pe-ta-cu-la-res!

          Ah, acho que nesta idade aposentamos a falsa modéstia também.


7 comentários:

AC disse...

O seu balanço é de uma grande lucidez.
Parabéns pelos gloriosos 58 anos!

beijo :)

Celina disse...

LI A SUA CRÕNICA, COMO SEMPRE MUITO BÕA, EMBORA EU NÃO CONCORDE COM MUITAS COISAS, ACHO VC NA FLOR DA IDADE, EM FORMA E BEM CONSERVADA ME FAZ SENTIR SAUDADES DOS MEUS SESSENTA ANOS,ABRAÇOS CELINA

Jeanne disse...

Continuamos com afinidades...
Estou curtindo demais esta fase, é muito legal, lembra um pouco a adolescencia, não somos mais jovens mas ainda não somos velhos.
Infelizmente não tenho a mesma serenidade, continuo em ebulição, ainda ADORO! ou ODEIO!
Meu psiquiatra disse que vou ser adolescente sempre, já pensou eu velha, ruiva, maluca beleza?
rsrsrs
Beijos

Anônimo disse...

Sempre te acompanho por aqui,então como querias, estou aqui para te desejar muitas felicidades, saúde e paz junto a tua familia, tudo de bom na nova idade. Bjs

francari disse...

Parabéns.
Você é uma "cinquentinha" simplesmente liiiiiinda!

ane.aguiars disse...

Amei sua cronica de hj! Vou encaminhar à minha mãe. Ela irá fazer 58 em breve...

Parabéns mais uma vez.

Ane Aguiar

Roseli disse...

Pois é, Dona Malu... nasce a mulher madura mas, mais que isso, aparece ainda melhor e escritora. Teu texto foi um brinde à vida e às vivências nada elementares e me fez sentir coragem de seguir meu caminho. Ainda estou nos 46 e como o tempo voa, não te alcanço, mas chego lá taambém! heheh...
Beijos, querida. Saudades!