segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

O QUE É A VIDA AFINAL?!




                   Não, não me venham com frases feitas, dizendo que é tudo uma questão das nossas escolhas. Nada disso!  Raras vezes temos a opção de escolher, geralmente somos levados num torvelinho que nem sabemos aonde vai parar, empurrados daqui e de lá, atendendo a gregos e troianos, pegando as migalhas que caem em nosso prato, sem jamais nos saciarmos e sempre adiando para uma outra encarnação a concretização dos sonhos mais acalentados e mais difíceis de realizar.
                   Meus professores achavam que eu deveria ser advogada, afinal fui líder de turma em todos os anos que estudei e oradora em todas as formaturas, do Jardim de Infância à Universidade.
                   Eu queria ser médica e só tirava dez em Biologia, de tanto que gostava. Matriculei-me no Científico e meus pais me chantagearam para fazer junto o Curso Normal e lhes dar “de presente” o diploma de professora primária, até porque meu pai disse que eu não sairia de Alegrete para estudar, pois as moças só iam “se soltar” em Santa Maria ou Porto Alegre e que eu deveria escolher um curso que tivesse na minha cidade. Entre Letras e Economia, a escolha foi óbvia. Mas as opções, convenhamos, eram bem restritas.
                  Nunca pude ir a uma festa à noite antes de debutar, aos quinze anos. Casei virgem com dezoito anos. Meu vestido de debutante anda estava novo e servia perfeitamente, poderia até ter usado o mesmo...
                  Há quem me rotule de quadrada, certinha, de direita demais. Como não ser? Meu pai era da UDN e as regras na minha casa eram muito rígidas. Liberdade só para ler e estudar bastante. Mesmo assim morro de saudades daquele tempo...
                 Eu queria conhecer o mundo, viajar para tantos lugares, conversar em diversos idiomas com gente interessante, que tem o que dizer!
                 Deve ser muito bom comer quando se sente fome e dormir quando se tem sono, ao invés de cumprir horários rígidos e estar sempre achando que passou da hora e vai se atrasar.
                 Ser dona dos meus dias, do meu tempo é uma sensação ou experiência que nunca tive, pois há sempre alguém à minha espera, dependendo de mim para alguma coisa. Primeiro os alunos, os filhos, o marido, os pais e depois os netos.
                   Nascemos e morremos sós. Alguns passam pela vida também sozinhos, muitas vezes numa solidão asfixiante, sem ninguém para compartilhar o bom e o ruim, nem mesmo para receber a correspondência num prédio sem porteiro.
                  Na velhice, sobrevive melhor quem partilhou a vida, pois terá mais gente para lhe tomar conta e para segurar as alças do caixão. É a compensação pela individualidade sufocada no seu tempo na terra.
                   Raramente são escolhas, opções. Poucos escolhem viver sós ou acompanhados, as coisas simplesmente acontecem.
                   Numa dessas voltas da caminhada, entre triunfos e frustrações, a gente senta numa pedra no meio do caminho, olha pra trás, respira fundo e se pergunta:
                  - O que é a vida afinal?!




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