quarta-feira, 25 de agosto de 2010

UM CONTO

             A SUBURBANA


           Nunca se conformara com aquela vida tão longe do mundo das novelas e revistas que lia, mesmo atrasadas. Tinha pena da mãe, precocemente acabada na pesada lida e certo rancor pelo pai, que obrigara a coitada a ter tantos filhos e a se terminar lavando roupa, cozinhando naqueles panelões pesados e ainda ajudando na roça. Jamais poderia querer uma vida dessas para si mesma!
           Andava pelos cantos sorumbática, resmungando de cansaço e só virava gente quando eles iam dormir e ela podia sonhar um pouco, pelo menos até desligarem a luz.

           Não era bonita, sabia disso, no entanto tinha certeza de que com os enfeites certos poderia chamar a atenção dos homens da cidade. Não daquela cidadezinha ao lado, mas de uma grande capital, para onde tinha certeza de que um dia iria.
           Convidada para uma festa de batizado na cidade, conseguiu enjambrar uma roupa melhorzinha e foi com os irmãos mais velhos, com os olhos brilhando de esperança. Quem sabe não seria naquele dia que sua vida ia mudar?
            Envergonhada, ficou prestando atenção naquela família rica que chegou com um carro lindo e lindas crianças, muito bem vestidas. Com dinheiro todo mundo fica lindo, pensou. De repente, eis que a dona toca em seu braço, deixando nele um rastro de perfume e ela se encolhe, pronta para se desculpar do que nem tinha feito.
             - Você não gostaria de trabalhar na cidade grande, cuidando dos meus filhos?
              Beliscou a mão atrás das costas para ver se era sonho ou se ouvira mesmo a pergunta. Se queria? Como não? Era só isso que queria e esperava na vida! E se o velho encrespasse fugia, mas não voltava para aquele sítio nunca mais.
               - Senta aqui. A gente não morde. Você vai gostar da nossa casa, que tem até piscina, cachorros e uma televisão que até parece cinema. Você gosta de filmes na TV?
              A partida era um caminho sem volta, sem saudades, sem arrependimentos. Nada poderia ser pior do que viver naquela casa. Até a mãe lhe disse isso ao entregar a pequena trouxa com seus pertences.
              Com coisa boa a gente acostuma ligeiro e não demorou nada para a mocinha assustada pintar a boca, trançar o cabelo, beijar no portão. Só que ainda era pouco, queria mais. Queria vestidos macios como o da patroa, jóias nos dedos, um homem de voz macia e mãos fortes, encontros emocionantes, uma vida de verdade, como sempre sonhara. E ia conseguir.
               Descobriu que a patroa andava entediada e passava a noite ao telefone quando o marido médico dava plantão. Em algumas noites o sol já se anunciava quando finalmente o telefone voltava ao gancho e ela enfim ia dormir. Ouvindo escondida na extensão da cozinha descobriu que a voz macia da patroa marcava encontros e fazia juras de amor. Só que não comparecia, talvez com medo de perder o rico casamento. Criou coragem e, numa noite, confessou sua escuta e pediu para ir no lugar dela, queria tanto conhecer um homem perfumado , de mãos macias.
              Foi assim que descobriu o sexo, as drogas, verdadeiras orgias em motéis badalados, homens de mãos macias e de sopapos violentos; chantageou a patroa, usou os melhores vestidos dela, esqueceu as crianças e nunca mais ligou para saber da mãe. Encolhida num canto da cama ouvia o ressonar pesado e o cheiro de álcool do estranho ao seu lado. Então esta era a vida com que tanto sonhara naquelas noites frias do sítio, pensou olhando suas próprias olheiras no espelho do quarto imundo.
           Nunca saberia o que é o Amor.            

                                          

                       

            

Um comentário:

francari disse...

Gostei demais!
Gostaria de mais!
Parabéns!