sexta-feira, 27 de agosto de 2010

OUTRO CONTO

E então Francari (único comentarista do conto anterior), o que achou deste?

A INFIEL

“No fundo o que eu quero é que ninguém me entenda
para eu poder te amar tragicamente.”
(Vinícius de Moraes)

                Parece nome de tango, romance ou telenovela, todavia, neste caso, é apenas a alcunha que se lhe colou à pele, misturando-se aos fluídos de seu próprio corpo, compondo-a.
                Bem aquele vidente a prevenira, ainda na adolescência, de que haveria uma mancha negra em sua honra, a par dos sucessos e alegrias futuras. Então era isso. Estava fadada a desonrar seu lar, sua família, toda a sua linhagem antes mesmo do primeiro namorado. Destino é destino. Inexorável.
                Todas as pragas católicas revoavam sobre sua cabeça e seus olhos escuros, naturalmente arrogantes e perscrutadores, agora se rendiam ao peso da culpa. Só faltava ser apedrejada e arrastada pelos cabelos como as adúlteras dos livros sagrados.
                 Casara-se muito jovem, acreditando que as mulheres são como o cristal, que trinca fácil e não tem conserto possível; por isso, regulava até a intensidade dos beijos do noivo para não arranhar sua reputação.
                 Amava o marido, no entanto, nunca imaginara os anos de frustração que o casamento lhe reservaria, pelo equivocado desempenho sexual do mesmo, sempre em busca do próprio prazer e ignorando completamente a diferença de ritmo entre homens e mulheres em geral e eles dois em particular. Tantas vezes tentou e tantas ficou no primeiro estágio, enquanto ele se saciava, que desistiu. Era fria e pronto. O que veio depois foi uma sucessão de erros, tentativas frustradas, acusações, pretextos e filhos.
                  A melhor parte da sua juventude desperdiçou invejando os outros casais e sendo uma supermãe, fazendo seu martírio valer a pena. Nesse ínterim, não foram poucos os maridos das amigas que a cortejaram, certamente sabendo de seu problema conjugal pelas esposas e querendo tirar vantagem das supostas carências dela.
                   O amor pelo marido continuava. O abraço, o beijo, o cheiro, o aconchego para dormir, tudo era bom. Menos o sexo. Diante da recusa dele em procurar auxílio profissional, ela simplesmente deletou o sexo de sua vida, como a representação do desconforto e frustração cada vez maiores. Não tinha nem trinta anos e os hormônios eram tantos... sublimados, a duras penas, pela literatura, pela música, pela religião.
                    Até que um dia foi vista, ouvida, perseguida e assediada por um homem que não se intimidou com sua situação familiar e enlouqueceu de amor por ela. Virou poeta, enfeitou-se todo, leu todos os livros e ouviu todas as músicas que tocavam seu coração. Jurou-lhe que havia um mundo enorme do seu portão para fora e que faltava muito para ela morrer, dava tempo de recuperar tudo e ser feliz até cansar!
                     Ela relutou, rezou, fez promessa, penitência, apegou-se a cada pontinho positivo de sua vida conjugal, porém a tentação era imensa, com requintes infernais, como o são as tentações em geral.
                     Dia após dia precisava renovar as negativas, criar novas barreiras, inventar outras desculpas, fugir de tudo e de si mesma, enquanto o outro já conseguia até fazê-la sorrir com as histórias que inventava e contava com grande talento.
                     Depois vieram as flores, os presentes, as juras e demonstrações de amor eterno e ela se sentiu deusa, importante, desejada. Não é pouco para uma mulher cuja maior ambição sempre fora apenas ser feliz.
                     A primeira escapulida foi para uma pista de dança, onde descobriu que ele tinha asas nos pés e que a conduzia com a segurança que sempre sonhara e que nunca mais tinha experimentado, desde que se comprometera em um namoro sério. Seu marido não tinha ritmo, não sabia dançar e ela penava sentindo o corpo movimentar-se num compasso errado, quando cada partícula de seu ser era repleta de musicalidade. A dança foi sua primeira ressurreição.
                      O gim tônica aliviava a culpa e os momentos roubados tinham tanta intensidade que a energizavam para todo o resto. A vida ficava leve, as correntes que arrastava se tornavam de algodão e o destino já não era a morte e, sim, o próximo encontro.
                       É claro que seus valores cobravam caro, que as lágrimas se tornaram mais freqüentes e que o remorso ocupava agora o lugar da frustração. Mas nunca se sentira tão viva, tão mulher, tão bonita! Nas curvas bem feitas do corpo agora não sobrava uma gordurinha sequer, os cuidados habituais com a aparência se intensificaram e seus olhos brilhavam como faíscas. Volta e meia se pegava com o olhar distante, rememorando cada detalhe, cada palavra intensamente. O martírio da culpa pesava apenas na distância; a simples recordação da intensidade das palavras, com a essência buscada por anos a fio, logo amenizava a tristeza e a fazia acreditar numa felicidade possível. Seria tão mais fácil ser virtuosa, resignada, elogiada, respeitada! O mundo tem uma dedicação especial para com os infelizes, vendo o infortúnio quase como uma qualidade, um mérito naquelas vidas tão sem graça, sem sal, sem pimenta, sem adrenalina.
                 Nos momentos de extrema mea culpa, tinha ímpetos de fugir com os filhos para uma ilha deserta, visão romântica de proteção e distanciamento da realidade. Depois, lembrava das grandes estréias que vinham acontecendo em sua vida e que já havia postergado para uma próxima. Cantara em alguns bares, no meio da noite, depois que a ouviam cantar da mesa e a convidavam para o microfone. E ela que adorava cantar! Num piano bar, embalada pela noite e pelos brindes, ousara ocupar o teclado do piano e recebera até convite para tocar profissionalmente. Mas, então, aqueles nove anos de estudo não visavam apenas orgulhar a família nas audições de final de ano, no clube da cidadezinha de onde viera? Os aplausos daquela gente bonita, perfumada, desconhecida, os olhares gulosos de alguns cavalheiros, o neon das luzes, o cheiro da noite naquelas mágicas escapulidas davam-lhe um choque de realidade. Estava viva! Era ela! Inteira!             
           O sentimento é mais catalisador que a atração e é ele que faz os relacionamentos progredirem, se deteriorarem ou terminarem. Ele ou a sua ausência. Com ele chega o ciúme, o desejo de não se separar, a vontade de ver, ouvir e tocar o tempo todo. E aí as coisas se complicam. O que era para ser uma válvula de escape se transforma em obsessão e a tristeza retorna, agora por motivos diversos, O que era só bom torna-se pesado, a culpa cede lugar à dúvida: “- troco ou não troco?”
             No afã de medir e pesar características, hábitos, etc. vai-se grande parte do encanto. O Inferno não seria tão atraente se tivesse a mesma organização e tranqüilidade do Céu.
              Nem tudo depende de nós nesse mundo e, às vezes, o destino decide pela gente. Aquele homem, para quem a terra só girava porque ela existia, que não media esforços para entendê-la, elogiá-la, defendê-la, ajudá-la e fazer com que ela se sentisse a pessoa mais importante do mundo, sem mais, nem menos, sem aviso prévio, sem sinais... morreu.
               Então o casamento já tinha sido desfeito, sob toneladas de culpa e sofrimento, e dias nada auspiciosos aguardavam a jovem e bela infiel. O tribunal da Inquisição teria sido mais brando que o da sua família. Foi deserdada, difamada, hostilizada, perdeu legiões de falsos amigos, enfrentou o olhar triste, mudo e acusador dos filhos (a pior parte) e ouviu da própria mãe que “trocara seu casamento por uma cama.”
                Rivalizando com as Cataratas do Iguaçu em volume de lágrimas, ficou quase anoréxica e aquela sombra escura sob os olhos, num corpo magro, a tornava ainda mais bonita.
                Comeu e deu aos filhos “o pão que o diabo amassou”. Estudou, trabalhou, economizou, rezou, chorou, leu, escreveu, penou, penou, penou... até que o redemoinho da vida trocou as peças de lugar e as traições do marido – tantas! – principiaram a aflorar. Ainda na lua-de-mel, quando estava grávida, quando viajava de férias com as crianças, em sua própria casa, no local de trabalho, nos cursos, em todos os lugares! Fora, sem dúvida, a infiel mais traída do planeta! E o homem correto, honesto, trabalhador, fiel, apaixonado (?), razão de suas asfixiantes culpas, não pensara duas vezes antes de substituir sua esposa “fria” por quantas cruzassem seu caminho e topassem a experiência. Até filho tivera com outra!
                   Não existe remorso mais dolorido do que aquele do que já não se pode consertar. Teria feito tudo diferente se soubesse, teria economizado dores, cristalizado os momentos felizes, ao invés de sufocá-los em montanhas de infelicidade. Teria dito as palavras decisivas na hora certa, arrumado as malas, cruzado a porta, permitindo-se experimentar. Apagaria os cigarros, afastar-se-ia do vinho, não engordaria tanto compensando as frustrações com gulodices.
                Agora, tudo parecia uma tragicomédia de erros, onde todos desempenharam o papel do vilão e do perdedor.
                Linhas finas circularam seu sorriso, raro e cativante. Fios prateados salpicaram seus cabelos escuros e certa aspereza misturou-se à antiga doçura de sua voz. Perdera a inocência. Não nas camas a que a mãe referira, mas no engodo do homem pelo qual sacrificara a sua juventude. Além disso, perdera aquele para quem fora a estrela guia e sabia que nunca mais alguém conseguiria fazê-la se sentir assim.
                 Aproximou-se do piano de cauda, alisando as teclas levemente. Certificou-se de que não havia ninguém nas imediações da sala onde estava, num clube do bairro onde fora participar de uma reunião do seu condomínio. Sentou-se. Testou os pedais e seus dedos apropriaram-se do teclado, ainda um pouco tímidos, mas logo a transportando ao mundo mágico e tão familiar da música, derrubando barreiras, olvidando temores, tocando! Quando segurou a última nota ouviu o aplauso, seco e viril. Voltou-se, surpresa e contrariada, deparando-se com um desconhecido de traços marcantes no rosto, alto e esguio, com fartos cabelos prateados.
                 - Chopin?
                 - Sim.
                 - Um noturno.
                 - É.
                 - Opus 9, nº 2. É o meu preferido.
                 - Com licença. A reunião vai começar.
                 Dias depois, recebe flores em sua casa, com um cartão:
                 “- Espero ter acertado. Pedi auxílio a Chopin.”
                  Como ele adivinhara que ela adorava cravos vermelhos? Um gosto tão inusitado... só faltava gostar de ler Nelson Rodrigues também!
                   Naquele dia deteve-se mais diante do espelho, examinou criticamente as roupas nos cabides, jogou fora os bombons e tocou piano até seus dedos reclamarem.
                   Coisas muito pesadas nos aniquilam; gestos pequeninos, às vezes, conseguem nos despertar.
                    Será que a vida ainda poderia valer a pena?

Um comentário:

francari disse...

Achei lindo, você consegue transformar histórias aparentemente comuns em belos e requintados contos...Sérgio Faraco que se cuide, já tem concorrente. Abraço
Francisco Carlos, via internet ou
fran car i