terça-feira, 8 de junho de 2010

CORAÇÃO DE BEIJA-FLOR

               Antes de iniciar o texto propriamente dito, quero esclarecer que da recente reforma ortográfica da língua portuguesa só aderi à suspensão do trema  e mesmo assim meu revisor do Word insiste em colocá-lo. Como não estou lecionando e não acredito muito na tal reforma, desisti de pesquisar e modificar minha escrita. Uma vez que Portugal (onde a reforma seria mais contundente) não está nem dando bola para a tal "exigência" e outros países de língua portuguesa também não estão mudando nada, eu, por minha conta e risco, continuo escrevendo como aprendi e como ensinei. Pelo menos por enquanto.

                 Meu beija-flor continua sendo com hífen. Acho que fica mais elegante assim.
                 Pois ele bate as asas, voa para trás, come horrores e tem um coração que é quase todo ele e bate num ritmo muito acelerado.
                  Como o dos namorados, por exemplo. Ou dos e-namorados, melhor dizendo.
                  Com a proximidade do Dia dos Namorados o amor volta à pauta, ainda que não seja tão evidente como em outros tempos.
                   Você conhece alguma pessoa apaixonada? Mas apaixonada pra valer, daquelas paixões de tirarem o fôlego, a concentração, a razão?
                    Não sei se é apenas impressão minha, todavia não sinto mais aquele clima de paixão no ar. Parece que as pessoas estão ambiciosas demais, racionais demais, cansadas demais para se apaixonarem daquele jeito avassalador que caracterizava as grandes paixões.
                   Sabem que tem muita gente que passou pela vida sem jamais sentir os famosos calafrios, pontadas no estômago, joelhos bambos e olhos de um brilho incomparável? Mal sabem eles o que perderam...  É claro que também economizaram sofrimentos, noites de insônia, mar de lágrimas e uma fonte inesgotável de desculpas esfarrapadas. Alguns podem achar que foi melhor assim, outros não deixariam de viver um grande amor pelo receio dos incômodos.
                   E aqueles casais que batiam o olho e nunca mais se separavam, deixando tudo e todos para trás e vivendo um grande amor a partir do primeiro encontro? Com Jorge Amado e Zélia Gattai foi assim. Com Tarcísio Meira e Glória Menezes também.
                  Mário Quintana viveu polida e platônicamente apaixonado, Vinícius de Morais transpirava paixões em sua música e os poetas quanto mais sofriam por amor melhor poetavam.
                  Namorar é muito bom, amar é muito bom, pena que o casamento às vezes rotinize tudo e acabe com a poesia. Dizem que é um mal necessário, talvez seja...
                  Não sei se as paixões diminuíram ou se meus olhos da maturidade me fazem enxergar as coisas sobre outro prisma. Sei que o sexo aumentou, que a pouca vergonha também, mas isso não é paixão, muito menos amor! Ir pra cama com várias pessoas diferentes, em camas diversas e por aí afora não quer dizer que a pessoa realmente saiba o que é se apaixonar e viver um grande amor.
                  Namorado que se preze tem que ser como o beija-flor - feito de coração, de doçura, de batimentos acelerados, de frenesi. Se não for assim, será apenas mais uma data comercial para enriquecer as joalherias, os donos de restaurantes e as floriculturas. Tudo isso é muito bom, faz parte. É a moldura para a comemoração de um grande amor. Só que, nenhum porta-retrato, por mais belo e valioso que seja, se mantém sem uma foto dentro.
                  Neste 12 de junho tomara que se incendeiem de paixão as alcovas, gastem-se os batons no beijos, sejam dois beija-flores acelerados, inundados pelo sentimento mais valioso e antigo do mundo - o amor!

Um comentário:

francari disse...

Beleza de crônica, Maria Luisa, nada a acrescentar. Só quem viveu ou vive um grande amor sabe o quanto você acertou. Parabéns!