segunda-feira, 1 de março de 2010

AMOR ATEMPORAL ( a pedido, um miniconto)

                    Era uma vez uma menina que queria ser bailarina, como no poema da Cecília Meirelles. Queria ser artista de circo também, provavelmente contorcionista. Ah, e ter um cavalo, andar de gôndola, conhecer o mundo, encontrar um príncipe encantado, desde que não fosse preciso beijar o sapo antes.

               Casa cheia de espelhos, logo descobriu que aquela beleza toda que lhe atribuíam aparecia só nos olhos (certamente cansados) da avó e na bondade da mãe. Outrossim, sua inquietude e curiosidade constantes faziam com que tivesse pernas fortes, que as sapatilhas ajudavam a tornear. Não era, portanto, um caso perdido; nem seria impossível conquistar o coração de um príncipe de módico reino, desde que fosse bonito de doer, porque disso ela não abria mão.

               Passa o tempo, passa o tempo, passa o tempo... e nossa patinha quase feia se descobre de fina estampa, cheia de assovios pelas ruas, rebolando o que a mãe África lhe enviara através de algum escravo safado, lá no tempo das suas bisavós.

             E barbarizou, é claro! Fez strip-tease, top less, tudo quanto era proibido e desaconselhável para moçoilas casadoiras. Nas boates se exibia diante dos espelhos de dar inveja às profissionais da coisa. Nas praias fazia caras e bocas, empinando o bumbum e enlouquecendo seu eventual acompanhante, que já se dispunha a andar armado por conta da namorada. Nos motéis chegava a esquecer do parceiro de tanto se admirar no espelho do teto. Tava bonita a frangota!

              Como diria o bom Nelson (Rodrigues, é claro), era a legítima “namorada lésbica de si mesma”.

              Passa o tempo, passa o tempo, passa o tempo... e ninguém sobrevive de se olhar no espelho, portanto, ela foi à luta e se transformou numa mulher dinâmica, vaidosa, antenada, que forçava os olhos para ler sem óculos a fim de desfrutar da liberdade dos olhos nus.

            Deu conta de tudo o que a vida lhe ofereceu e lhe cobrou direitinho, numa eficiência até para ela própria desconhecida. Chegou a ter três empregos ao mesmo tempo, sem deixar de dançar e de se olhar no espelho.

             Um dia, sem aviso prévio, chegou a aposentadoria e a menopausa. Pacote duplo, completo, com tudo o que cada um deles significa e traz embutido. E o tempo sobrou. Tempo para pensar e fazer balanços difíceis, com direito a alguns arrependimentos, porque só os inconsequentes erram e dizem que fariam tudo igual. E isso ela não era.

            Trocou os espelhos pelos livros, que sempre estiveram quase empatados, promovendo uma verdadeira fuga através da leitura, agora com o auxílio de óculos bem graduados.

             Num desses momentos, o livro que lia “criou barriga”, ficou chato e ela, ainda de óculos, inicia um auto-exame ali mesmo, estendida no sofá da sala de estar. Primeiro dos pés (como enfearam!), depois das pernas (de onde surgiram esses vasinhos azuis?), das mãos, que sempre foram lindas, elogiadas e agora com a pele sem viço, encrespada e com manchas de sol.

             Num ímpeto, levanta do sofá e corre para se ver no espelho do banheiro, desesperando-se com a pele esquisita, de poros dilatados, tão diferente daquela que normalmente o espelho lhe devolve, maquilada e sem óculos.

            Conclui, com uma ponta grande de tristeza, que a natureza é sábia e que nos diminui a visão na medida em que aumenta a decrepitude do corpo.

          - Hora de cuidar do interior!,diz para si mesma. Revigorar os valores, abandonar os vícios, aumentar a religiosidade, fazer trabalhos voluntários, crescer como pessoa.

          De repente, eis que surge um sorriso brejeiro no espelho, que a ilumina e acende o brilho no olhar. Ainda bem!

           Corre ao telefone:

          - Cássio? É, sou eu. Não morri não e estou louca pra te ver! No mesmo lugar?

          Ele também envelhecera. E muito. Mas, quando sorria, mostrava aquele outro, antigo, escondido dentro dele.

           - Tira os óculos! Aqui não vamos precisar deles. Deixa que nossos sentidos aflorem, sem serem ofuscados por uma visão artificial.

           E ela voltou a dançar, rindo alto, abraçada a seu príncipe encantado.

Um comentário:

Jeanne disse...

Ainda bem! Pensei que ela iria resignar-se ao trabalho voluntário, como eu,rsrsrs...
pelo menos este final foi feliz.
Parabéns, um conto bem moderno.
beijos