quarta-feira, 16 de novembro de 2016

SAUDADE




                             De tanto os navegadores portugueses espalharem seu povo pelas terras descobertas e conquistadas, de tanto desterro, de tanto tempo a bordo dos navios e longe dos seus entes queridos, nossa língua acabou ganhando uma palavra para significar aquele aperto no peito, aqueles olhos tristes e molhados, aqueles suspiros compridos... SAUDADE.

                            A saudade é prima irmã do amor e só sentimos saudade das pessoas que amamos, dos tempos que foram bons. Até de nós mesmos sentimos saudade, pois estamos em constante transformação e desgaste, portanto, somos sempre saudosos de um tempo em que éramos mais jovens, mais bonitos, mais cheios de esperança.

                            Há muitos anos sinto saudades do meu filho mais novo, que morava em outro estado e, embora nos visitasse com frequência, estava sempre fazendo falta nos encontros familiares, no dia a dia, em tudo. Há alguns meses ele comunicou seu projeto de trabalhar numa grande e promissora empresa no Japão, que requeria sua experiência, sua eficiência e acenava com propostas difíceis de serem equiparadas por uma empresa nacional. Desde então, mesmo com ele debaixo do mesmo teto por alguns dias, comecei a sentir saudade. Uma saudade antecipada e dolorida, que prendia meus olhos nele, tentando fixar nas retinas sua imagem, guardar o som da sua voz e o calor dos seus tantos abraços. Mas precisava ser forte, disfarçar, confiar, passar otimismo, apoiar. Pelo menos até o dia em que ele, chorando também, saiu dos nossos braços para o embarque no primeiro dos tantos voos até o destino no Japão.

                              Não, não me venham dizer que dor é perder um filho para a morte, porque disso eu entendo bem. Perdi um irmão saudável e inteligente aos 17 anos e sei o que são espinhos atravessando a alma e a destruição completa dos meus pais.

                              A dor que eu falo é uma dor com esperança, uma dor com orgulho, com a possibilidade de comunicação através de tantas tecnologias, mas lhes garanto... dói muito também! Quando os braços da gente abraçam o vazio, quando nossos dedos não encontram mais os cabelos do filho para um cafuné, quando não podemos ver como ele está, se cansado, se alegre, se triste, quando não ouvimos sua voz, suas perguntas e não as podemos responder na hora... e quando contabilizamos a distância... juro pra vocês que é muito difícil!

                            Sei que o tempo assopra, que a dor da ruptura tende a amenizar, principalmente para ele que está descortinando um verdadeiro mundo novo. Ainda bem, pois não seria possível sobreviver com a alma tão machucada. Por uns tempos, não será fácil sorrir e a tendência é nos fecharmos, como ostras, guardando bem protegida a nossa saudade, que é muita!

                            Nada retrata melhor esse momento do que as palavras sempre inspiradas de Chico Buarque, numa de suas mais belas canções: 


“Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais.

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus.”



https://www.youtube.com/watch?v=z1k-sOC1miQ




Um comentário:

derli baltasar castagna paim disse...

Parabéns, pelo seu texto. Lindo!