quarta-feira, 17 de junho de 2015

OS 96 ANOS “DE VIDA” DA MINHA MÃE.





                      Morre-se muitas vezes durante a vida. E se renasce também.

                      Minha mãe - Conceição – morreu um pouco quando perdeu seu pai, que era a luz do mundo para ela e se foi muito novo, vitimado pelo cigarro e pela política.

                      Depois quase morreu de verdade ao perder o filho caçula, da forma mais trágica e bestial que um adolescente pode morrer.

                      Quando meu pai ficou cego, sua luz se apagou junto e até hoje ela passa muito tempo de olhos fechados, de tanto que tentou imaginar o mundo dele e ser solidária.

                     A quase paralisia da sua mãe durante longos anos tirou-lhe muito do brilho e apagou seu sorriso tão bonito.

                     Minha mãe morreu muito quando a degeneração macular a impediu de ler, sua maior paixão, seu lazer por excelência, seu consolo de tudo.

                      Então eu fui resgatá-la e trazê-la para perto de mim e dos meus filhos. A saída da terra natal e da casa onde vivera a vida toda e trouxera seus filhos ao mundo foi outra morte em vida.

                      Só que ela ressuscitou! Graças a Deus e aos mimos dos netos, o carinho dos bisnetos e a casa sempre cheia, com bebês ao colo, brinquedos, bonecas por todo lado e a mesa sempre repleta e barulhenta, como ela gosta!

                      Além da turma local, o filho e a nora a enchem de paparicos quando vêm visitá-la, bem como os netos e bisnetos da capital gaúcha.

                       A enteada-filha, que se parece mais com ela do que a própria filha, também não a esquece, assim como o genro e o ex-genro, que a consideram uma segunda mãe.

                       Neste renascimento também foi importante a colaboração da nordestina Ivete, que conhece todas as suas preferências, o fisioterapeuta Luiz que não a deixa parar, o radialista Carlos, que conversa e reza com ela pelo rádio até ela pegar no sono e, sobretudo, a leitora Luiza, uma quase neta que lê jornais, revistas e romances para ela diariamente!

                      Além disso tudo, os amigos continuam a procurá-la por telefone e ela sempre tem o maior prazer em conversar com eles e saber notícias da sua terra e da sua gente.

                      Minha mãe é uma mulher encantadora, uma fortaleza disfarçada naquele sorriso meigo e nas mãos pequenas que não param de gesticular. É completamente apaixonada pela família e até agora põe os netos no colo para fazer cafuné, além de assistir todos os jogos do seu Inter com eles, comendo pipoca, torcendo, escalando, nervosa.

                     Ela entende de política como poucos e seus médicos adoram pedir sua opinião e ouvi-la contar casos da política desde Getúlio Vargas.

                     Dona Conceição ensinou as bisnetas a brincar de bonecas, criando enredos e diálogos e, com isso, incentivando a leitura.

                      Passei muitos anos só desfrutando da companhia da minha mãe nas férias. Ainda bem que tive esta segunda chance e que hoje almoçamos juntas diariamente e conversamos bastante na hora do café da tarde.

                      Parabéns mãezinha!

                      Viver noventa e seis anos com essa lucidez e essa saúde é a recompensa por tudo o que passaste e pela maneira forte e resignada com que enfrentaste as intempéries.

                     Sou tua fã!

                     E te amo!

                      Muitas felicidades e muitas bênção divinas!




2 comentários:

Roseane Guterres disse...

Agora na presença de uma amiga , aprendi enviar um comentário, sobre tudo que sempre leio aqui e não conseguia comentar. Minha amiga é uma advogada e já começou ler teu blog. Depois fará seu comentário.

Maria Luiza Vargas Ramos disse...

Bem vindas as duas! Beijos.