sexta-feira, 28 de agosto de 2009

SOLIDÃO POVOADA

                          A solidão talvez seja o "mal do século" XXI.
                          Sobre ela se teoriza muito, estabelecendo-se semelhanças e diferenças, graduando, adjetivando, metaforizando. 
                          No final das contas, solidão é estar sozinho mesmo. O resto é literatura.  Claro que um bom livro ameniza, neutraliza, assim como um bom filme, boa música, bom sono. É óbvio que existe gente tão chata e espaçosa que a gente prefere estar sozinho a dividir espaço com ela. Agora, dizer que solidão é apenas um estado de espírito... tenho lá minhas dúvidas.
                           Durante bastante tempo fiquei a semana toda sozinha. O marido trabalhava em outra cidade e os filhos estavam todos buscando longe daqui seu aprimoramento profissional.  Ficávamos eu e a Pitty. Às vezes nem me dava conta, quando via o sono chegava antes da consciência do estar sozinha. 
                           Agora, quando o chimarrão me esperta
va, percebia meu corpo físico no sofá e as lembranças eram inevitáveis. Como se escutasse a algazarra dos filhos correndo pela casa e rindo como só as crianças sabem rir. As conversas com o pai, os conselhos da avó, as cobranças da mãe para as notas acima de 9,0. Com pouco esforço chegava a sentir o cheiro do meu uniforme, dos livros, do arquivo, das salas de aula, da cozinha da Constança com aquela variedade de pratos feitos no capricho.
                         O olfato é um potente detonador da memória. Através dele, sinto o cheiro dos pianos do Conservatório, podendo identificar cada um deles. O suor das sapatilhas nas aulas de ballet, os uniformes suados nas aulas de educação física, os perfumes dos rapazes nos primeiros bailes, os desinfetantes usados na Maternidade e o cheirinho de bebê, inconfundível e inesquecível.
                         Sou capaz de lembrar do cheio do tule engomado do véu de noiva e do baú onde guardava as peças do meu enxoval. Uma melancolia boa e suave toma conta de mim, assim como uma saudade do que sabemos não ter mais retorno possível.
                       Agora a minha realidade mudou, sinto até saudade de ficar um pouco mais sozinha.
                       Mas sei que muita gente vive só sem se sentir sozinha, e outros vivem cercados de gente num solidão absoluta. 
                       É a vida!





2 comentários:

Jeanne disse...

Doces recordações, feliz de quem tem tanta coisa boa para relembrar.
Bom fim de semana, tem sol por aí?
Um passeio ao ar livre é ótimo!
Beijos :)

Luci Lacey disse...

Recebi um convite da Jeanne, e gostei do que li, parabens pelo blog.

Abracos e bom final de semana.