segunda-feira, 6 de junho de 2016

AO MOLHO PARDO



                             Como de tudo. Ou quase. Fui treinada em casa para experimentar todos os alimentos e assim fiz com meus filhos e com a neta que almoça comigo. Creio que minha única restrição alimentar é carne crua e carne de caça. Picanhas sangrentas também não me agradam muito, prefiro sempre ao ponto. Aprendi a comer até sushi e sashimi para acompanhar a nova geração. Acho muito desagradável ver pessoas catando temperos no prato e enchendo as bordas disso e daquilo que não comem. Mas ,enfim, o que importa mesmo é que a comida seja preparada com ingredientes frescos e o máximo de higiene. O resto depende do talento do cozinheiro.
                             Nunca provei galinha ao molho pardo. Dizem que é um prato saborosíssimo. Explico. Na minha casa tinha muitas galinhas e sempre pintinhos atrás delas. Eu costumava ter uma ou outra de estimação para quem dava nomes e cismava que elas me reconheciam e atendiam ao meu chamado (embora todas viessem). Aos sábados, a cozinheira escolhia uma bem gordinha, corria atrás dela, cercava, pegava, torcia o pescoço e deixava pulando sob um balde até parar. Depois esquentava uma água bem quente, depenava e queimava com álcool e fogo as penugens restantes. Daí abria, cuidando um tal de fel, achava ovinhos em profusão que iriam para a sopa e deixava temperada para fazer no domingo.Naquele tempo as empregadas não tinham folga em dia nenhum. Iam em casa à tarde e voltavam para preparar o jantar no fogão à lenha. Curiosamente, eram bem mais eficientes que as de hoje, com tantos direitos e regalias.
                              Pois bem, em algumas ocasiões a matança das penosas se dava de forma bem mais chocante. Era quando uma faca afiada entrava em seu pescoço e o sangue ficava pingando numa caneca com cuidados extras para não talhar. Eu costumava ficar xingando a cozinheira nessas horas, mas ela ria e nem me dava bola, ainda ameaçava que a próxima seria a minha, aquela eu chamava de Flor. Por conta de acompanhar o processo, sempre me recusei a comer galinha ao molho pardo e, por uma concessão incomum na família, eles assavam um pedaço à parte para mim quando o prato era aquele.
                             Certa vez, minha avó ia receber um convidado muito importante para o almoço e mandou fazer a famosa galinha ao molho pardo que todos adoravam. Todos menos eu. A equipe da cozinha, contratada para a ocasião, assou uma coxa e sobrecoxa para mim que daria para alimentar um dragão pelo tamanho e a ordem era não deixar resto no prato. Sofri, suei, mas consegui comer tudo, até que tive uma quase congestão, uma parada estomacal e o convidado ilustre acabou caminhando comigo no pátio até descer aquela refeição gigantesca.  Acho que fiz um papelão e estraguei toda a finura do almoço, tão bem preparado pela minha avó.
                             Por essas e outras continuo sem provar esse prato famoso e tão bem recomendado pelos gourmets. Ontem, num programa de culinária da Austrália, vi a preparação de um crocodilo ao molho pardo... assustador! Acho que vou continuar sem comer. Aquele molho parecendo chocolate deve ter gosto de sangue... Ou não? 




4 comentários:

IZABELLE Valladares disse...

Eu amo galinha a molho pardo, em Ouro Preto comi uma maravilhosa no Hotel em que ficamos hospedados, mas comi em Portugal arroz com enguia que também leva sangue e confesso que fiquei meio embrulhada, até por que o sabor da carne era muito forte, mas a galinha é maravilhosa, fui criada comendo muita galinha a milho pardo, pois minha avó tinha um abatedouro e era o prato preferido dela aos domingos, preparado pela Nora que era minha mãe, esse prato me traz boas lembranças.

Maria Luiza Vargas Ramos disse...

Na minha casa era prato fino. Só eu é que não comia. Dizem que é saboroso.

Roselia Bezerra disse...

Boa noite, queria maria Luisa!
Era eu que matava as penosas quando adolescente... que coisa horrenda! Era obrigada pois minha mãe não fazia e tinha que depenar com água escapelando e ainda queimar penugem no fogo... cada barbaridade que nem acredito!
Bjm muito fraterno

Rosana disse...

Adorei o texto e confesso que também não aprecio o prato.