sábado, 15 de outubro de 2016

EU, PROFESSORA



Exerci minha profissão durante trinta anos, sendo por ela (mal) remunerada. Lecionei desde a primeira série do primário (hoje Fundamental) até os formandos de Letras e Pedagogia. Mas minha vocação se manifestou bem antes. Desde criança, dando aulas para as bonecas. Na adolescência, com alunos particulares em casa. No colégio, para meu grupo de trabalho. No presídio, de graça, alfabetizando os presos menos perigosos.
Hoje, penso que fui professora de cada filho, de cada empregada, de cada amigo que precisasse, ou quisesse aprender alguma coisa comigo. Meu didatismo supera o conhecimento, pois consigo ensinar até o que não sei direito. ISSO, a meu ver, é vocação.
Com netos pequenos, finalmente bem próximos, torno a exercitar meu dom e passo o tempo todo, mesmo que de uma forma lúdica, ensinando o que seus pais deixaram escapar. Meu filho mais velho me chama de supernanny, numa alusão à babá inglesa que é chamada para dar jeito em crianças endiabradas e totalmente deseducadas.
Gostava de dar aulas de etiqueta aos jovens da periferia, de música clássica, de literatura e sempre insisti nas melhores viagens da nossa vida, que fazemos através dos livros.
Quem me acompanha no jornal há quase quarenta anos, ou leu meus livros de crônicas, sabe que eu nem pensava em ser professora, foi uma escolha que a vida fez por mim, todavia, dificilmente eu me sairia melhor em outra profissão. Ler, escrever e ensinar são os verbos que conjugo com maior frequência e onde me realizo mais plenamente.
O sonho de muita gente sempre foi ser “cinquenta”, nada polarizado no oito ou oitenta por exemplo.
Já o meu sempre andou na contramão. Além de ser reconhecidamente oito ou oitenta (pelo menos enquanto jovem), gostaria de ser MUITO boa em alguma coisa, tipo referência naquilo, leitura obrigatória, consagração.
Mas não foi essa a educação que recebi. Quase ao contrário, fui criada para navegar em vários mares, conhecendo um pouco de tudo, ousando até ali, mudando o foco diversas vezes.
Uma pianista moderadamente talentosa; uma bailarina com certa facilidade e bastante ritmo; atleta esforçada; aluna estudiosa e assim por diante.
Como professora, no entanto, sempre rendi o meu máximo e, mesmo aposentada, continuo lecionando os netos e ensinando o que sei a quem deseja aprender. Tento acreditar que não existem maus professores, que acabaram os professores unicamente avaliadores, aqueles que cobram o que não ensinaram; que os salários dos professores finalmente ficaram dignos do tanto que eles precisam estudar e se aprimorar. Hoje, quero pensar que os governantes finalmente reconheceram a matéria-prima com que o professor trabalha e a julgaram mais importante que o aço, o ferro,o carvão, ou seja lá o que for.
Enfim, quero crer que, graças aos professores, de todas as áreas e níveis de ensino, este planeta e esta humanidade ainda poderão ter salvação.









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