Quando se fala em herança, logo nos vêm a imagem de brigas,
partilhas, repartições, direitos e muita inimizade. Essas heranças materiais
costumam desagregar as famílias e, quanto mais bens envolvidos, maiores as desavenças.
Os pobres se unem para compensar a perda do ente querido e para pagar os custos
do enterro; os ricos procuram logo um advogado.
Não é frase feita, nem palavreado vazio, a melhor herança
que se pode deixar a um descendente é a educação, a instrução, os bons exemplos,
os valores. Quem tiver uma biblioteca bem recheada, com bons livros, e tiver
conseguido incutir nos descendentes o hábito da leitura, o prazer de ler, terá
um tesouro a deixar para eles de herança. Triste é saber que muitos leitores deixam
seus livros maravilhosos para quem não os valoriza, que joga fora “porque
ocupam muito espaço” e se contenta com a limitação literária do Google e das
redes sociais.
Não é preciso ser genial para deixar uma herança positiva à
descendência. Uns deixam a imagem da sua fé, do hábito da oração. Outros se
eternizam pelos dotes culinários, pelo prazer do paladar e pelas receitas preciosas.
Há ainda quem tenha habilidade manual para tricotar, costurar, montar móveis,
consertar coisas, arrumar a casa, limpar bem o lugar onde vive, se enfeitar. Há
perfumes marcantes que remetem diretamente a quem o usou. Até expressões e citações
repetidas costumam deixar marcas em quem as ouviu por tanto tempo.
Pessoas metódicas geralmente ficam reconhecidas na sua rotina,
muitas vezes copiadas por seus descendentes. Só não vale ficar repetindo gestos
e palavreado que sempre o desagradaram, numa imitação irritante que não soma,
nem acrescenta nada. Não há nada mais burro do que negar aos filhos o que lhe
foi negado, ou impingir-lhes castigos semelhantes aos que sofreu. A gente tem
que procurar sempre andar pra frente, fazer melhor, copiar só o que foi bom, positivo
e deixar de lado tudo aquilo que o fez sofrer, ou lhe frustrou.
Num tempo em que a rua, a sociedade, o mundo tem tão pouco a
ensinar, cada vez mais as heranças positivas devem vir da família, numa busca constante
de mediar os ensinamentos funestos adquiridos nos maus programas de TV e nos
sites duvidosos da internet.
Pense um pouco. Que herança você está deixando para a família
que criou, para as gerações depois da sua? Como será lembrado? Que hábitos seus
serão copiados? Que influência positiva você deixou em seus filhos e netos?
Mais uma vez, repito os versos magistrais de Apparício Silva
Rillo:
“Ter filhos não é ser ou perceber-se na estampa, nos retratos dos avós.
É ser as ramas que brotaram deles para dar sombra aos que virão de nós.”
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