quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A TORNEIRA DE NATAL




 Manhã do dia 25 de dezembro. Natal. Passeando com meu pai na praça do bairro, recordações, emoções novas, diferentes sensações vão se misturando a cada passo. Revejo-me criança, apressada para a escola, furtando flores para a professora ou em ruidosas correrias com a turma da rua, a pé, com patinetes ou bicicletas. Pensava em me tornar saudosista lá pelas tantas da vida, entretanto, eis-me aqui, babando pieguices sob os ipês da velha praça... A sombra generosa dos monumentos, o chafariz, o quiosque dos namorados e as alamedas sombreadas que conduzem à Igreja e às ruas centrais vão contando, passo a passo, minha história de vida naquela cidadezinha que já fora o centro do universo para mim. Caminhando agora sem pressa, uma vez que meu herói envelheceu como um mortal comum, vou sorvendo, com interesse, as lições de vida que ele me passa.
Já tínhamos caminhado o suficiente para suas pernas precisarem de um descanso, portanto, escolhemos um banco no centro da praça, protegido do sol pelas copas das árvores e recomeçamos o assunto; sempre casos antigos, de amigos que já tinham morrido, parentes que povoaram sua infância, políticos honestos e idealistas, tudo coisas extintas, infelizmente. Nesse momento, um rapaz, fruto da moderna e permissiva educação, torceu bruscamente a torneira da alameda central, tentando refrescar o porre da véspera e arrebentando com a frágil instalação. Logo um imenso chafariz enfeitou o passeio e os parcos recursos públicos minguaram um pouco mais.
Meu pai e eu, incapazes de consertar o estrago, ficamos conjeturando sobre as reações diversas dos transeuntes. A maioria passava indiferente, tomando o cuidado único de não molhar os sapatos na água que começava a empoçar na calçada. A primeira pessoa a tentar consertar o estrago foi uma freirinha que saía da Missa das 10h, mas não conseguiu. O jato forte atravessava suas mãozinhas delicadas, habituadas a desfiar as contas do rosário e não a soldar canos. Depois de muitos indiferentes, surge um guarda municipal que tenta estancar o vazamento dos cofres públicos, porém desiste depressa demais. Uma menininha pára a bicicleta e experimenta deter a enxurrada com sua mãozinha econômica - valeu a intenção apenas. Assim jorrava a torneira de Natal, refrescando a raiva da falta de festa, de peru, de presentes na mesa dos trabalhadores.
De repente, aparece uma figura, nossa velha conhecida, agasalhada mesmo no verão, com passos rápidos, uma touca cobrindo a carapinha branca, acompanhada por sua cachorrinha chamada Nenê. Vem cumprimentando todos os passantes, sempre com um sorriso aberto, sem se queixar de nada ou pedir qualquer coisa. Parou ao nosso lado e eu não me sofri. Perguntei seu nome e idade.
- Maria do Espírito Santo. 96 anos.
Admirada, quis saber a receita que ela tinha para permanecer lúcida e lépida com essa idade.
- Não tomar remédio de médico, diz ela. Porque tudo o que nos cura está na natureza, nas plantas.  E desfiou um sem número de chás e mezinhas dos quais pouco ouvira falar. Disse que tinha tudo o que precisava no seu quintal. Maranhense, dona Maria esclareceu que foi nascida e criada num sítio do município de São Luiz. Falou também que não achava relevante o fato de um ex-presidente ter nascido lá, mas, em compensação, citou estrofes inteiras da poesia de Gonçalves Dias, afirmando que a terra com palmeiras e sabiás é lá mesmo. Tudo o que a preta velha diz faz muito sentido. Caprichosa, a roupa impecavelmente limpa, pés e mãos grandes, alta e magra como uma africana de boa estirpe, dona Maria vive sozinha com sua Nenê e não tem medo de nada...só de remédios. Vendo o estrago feito à torneira da praça, balança a cabeça e defende a cachorrinha que, segundo ela, procede como um humano e nem todo humano procede que nem ela. Sempre apressada, despede-se recitando: -“QUEM ESPERA EM DEUS NÃO CANSA, QUEM ENCOSTA EM DEUS NÃO CAI  E, SE CAI, NÃO SENTE A QUEDA.”
Um avô atencioso, passeando com os netos, ao perceber o estrago feito à única torneira que aliviava a sede das pessoas, volta em casa e traz a varinha mágica que realiza o milagre de conter as águas da insatisfação - um alicate. Uma vigorosa torcida no cano e pronto. Tudo voltou ao normal na velha praça. Até a calçada molhada o sol secou rapidinho, para que não se pensasse em lágrimas numa data tão significativa.







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