domingo, 11 de abril de 2010

BANZO

                Por estar gripada não pude ir ao cinema ontem à noite.
                Por conta da chuva não deu para pegar filme na locadora.
                Foi assim que acabei assitindo a um DVD que meu sobrinho Rodrigo deixou aqui, de um tal "Guri de Uruguaiana".
                Uruguaiana, para quem não sabe, é uma cidade gaúcha que fica entre a Argentina e Alegrete. A família do meu pai é de lá e eu mesma já morei lá durante quatro anos.
                O show tem este título, mas a grande homenagem é feita aos alegretenses, pois metade da apresentação é embalada pelo "Canto Alegretense" - legítimo hino do Rio Grande do Sul.
                 Para quem não sabe, modéstia à parte, sou do Alegrete também. Nascida e criada na terra de Oswaldo Aranha.
                 Minha casa na rua Mariz e Barros continua lá, do jeitinho que meus velhos deixaram. A avó e o pai já se mudaram para o Céu e a mãe veio morar aqui pertinho de mim. Por causa disso, já não vou a Alegrete como fazia antes e como eu gostaria. Como defesa, bloqueei algumas imagens na minha memória e sublimei outras. Às vezes, recordar não é viver, é sofrer.
                 Pois o danado do guri de Uruguaiana abriu a tampa da saudade e ela jorrou aos borbotões, dolorida como só a saudade sabe ser. Relembrei tudo, do sotaque às pilchas, dos ditos gauchescos aos costumes e tradições. E me senti desterrada, ainda mais residindo numa cidade que já se chamou Desterro.
                 Descobri, então, que aquela sensação de perder as raízes, de achar que já pertencia ao mundo, que era apenas um formiguinha num formigueiro grande, sem identidade definida, era mesmo uma sensação ilusória, um paliativo para o que não tinha jeito de ser mudado, pelo menos no momento.
                 Então dormi, ou tentei dormir, com a alma encharcada de "banzo", aquela doença da melancolia e saudade da terra natal que acometia os escravos nos navios negreiros.
                 As ruas da minha cidade, a praça, o rosto dos meus amigos e vizinhos, as vozes, o céu, o sol, as estrelas, tudo do meu Alegrete passou revoando na minha cama.
                 Sei que, até por defesa, terei de voltar a sublimar muita coisa, pelo menos até poder viajar para os pagos, mas hoje estou carente e saudosa dos gaúchos e dos alegretenses.
                 Não dá pra negar!


                 
               

3 comentários:

Anônimo disse...

adersé mesmo, amiga, mesmo tendo saido de lá a tanto tempo, aquela cidadeziha continua muito viva em nosso coração.

Nadia disse...

Amei Baisa, como eu gosteria que viessem mais ,adoro ir naquela casa,parece que volto no tempo e vejo a minha mãe junto com a gente naquela sala onde o tio fumava o seu palheiro e nós falando pelos cotovelos, QUE SAUDADE!!!CHEGA A DOER!!!!um bjinho em todo o familião

francari disse...

Oi, Maria Luisa
Nesta crônica você fala em banzo e noutra mais recente em seu gosto pela música erudita. Bem, juntando as duas coisas, permita que eu lhe sugira ouvir duas pérolas da música erudita brasileira, "Banzo" e "Funeral de um rei Nagô", ambas com poemas do poeta da negritude, o mineiro Murilo Araújo e música do maestro e compositor Hekel Tavares, alagoano, creio. Você poderá encontrá-las pelos nomes das peças no Youtube ou no Google.
A propósito, apreciei as crônicas citadas; siga em frente e um dia a futura romancista sai do casulo. Grande abraço.
Francisco