quinta-feira, 24 de setembro de 2009

LUTO

             Não, embora a morte seja prima irmã da vida, não estou de luto...graças a Deus! Já estive por mais de uma vez, no momento quero e preciso falar dele, porque o luto de uma amiga muito querida me fez refletir sobre o que fazemos nessas ocasiões.
             Luto já nos remete a preto,  lágrimas,  tristeza, saudade irremediável.
             Não é fácil falar sobre isso, principalmente numa família onde muitos morreram tragicamente e ficou muita ferida mal cicatrizada.
              A tragédia também é prima da comédia e existe um verdadeiro folclore sobre velórios e enterros, com fatos e coisas inacreditáveis, surgidos do despreparo do ser humano para lidar com a única certeza que tem na vida - que um dia vai morrer.
              Perdi meu irmão caçula com dezessete anos, covardemente assassinado por um traficante (e antes disso por seus falsos amigos), no momento em que decidira voltar para casa e escapar daquele mundo-cão. Pois uma senhora muito bem posta na sociedade, bem escolarizada não disse à minha mãe que se conformasse pois "poderia ter sido pior" ?! O quê pode ser pior do que perder um filho nesta idade e daquela forma??? Imagino que a coitada não tivesse conseguido dizer nada mais adequado simplesmente porque não há mesmo o que dizer.
                 Diante da morte, cada um reage da sua maneira. Uns morrem no velório e no dia seguinte vão a uma festa. Outros brincam no velório e dia seguinte caem em depressão. Muitos choram, poucos renunciam aos programas pré estabelecidos, há até quem queira proibir os familiares de chorar para não prejudicar o morto.
                 É claro que não vou me envolver numa discussão religiosa aqui, pois todas as religiões sabem de onde viemos e poucas se entendem sobre o lugar para aonde vamos.
                 O que quero ressaltar é que o luto deve ser vivido em toda sua tristeza, com toda a dor sentida, porque senão, um dia, esta fase mal disfarçada vai querer vir à tona e as dores serão ainda maiores, pois recheadas de arrependimentos tardios.
                    Diz minha amiga Marília (justificando sua ausência e seu silêncio), após a morte de seu velho pai:  Sou do tipo caramujo. Enquanto não estou totalmente bem, fico escondida dentro da minha clareira interior e por lá fico, quietamente (fico sem vontade de conversar nessas ocasiões), refletindo, organizando os pensamentos, regenerando a alma e me harmonizando.
                    Outra coisa inaceitável é alguém pensar que,  porque as pessoas estão velhas, não farão mais falta. Como?! Se assim tivemos um tempo ainda maior de convivência com elas e estávamos ainda mais acostumados?
                     Parte muito dolorida e difícil do luto é o desmontar, doar ou guardar as coisas que pertenceram àquele que perdemos. Nessa atividade, junto aos objetos, arrancamos pedaços do nosso coração e nos esvaziamos um pouco, como o móvel ou a casa.
                     Minha amiga é uma daquelas pessoas que tudo o que faz faz bem feito. É excelente médica, professora, tem um site belíssimo sobre a nossa terra natal (http://assisbrasil.org/joao/alegrete.htm) e, de quebra,  escreve muito bem. Por isso, faço questão de copiar fragmentos da carta que ela me enviou, porque tem tudo a ver com o tema deste texto. Vejam o quê e como ela diz desta etapa difícil pela qual todos nós já passamos ou um dia passaremos.
                      Desmontar a casa paterna é reavivar a sensação de perda de todo o meu núcleo familiar (agora já se foram todos, só sobrou eu). Ao mesmo tempo, um sentimento de estar destruindo a minha infância e adolescência! A cada revisita à casa, fico lá sozinha, remexendo e separando o que pode ser descartado e doado, em meio a ausências, lágrimas, lembranças e saudades. Volto de lá com o coração rebentado. São saudades dos meus... e da menina e adolescente que fui. Muito duro, amiga! Ver aquela casa vazia, sem viço, sem folhagens, sem enfeites, sem quadros nas paredes; rever fotografias antigas e ver aqueles móveis que tanto valor afetivo tiveram para mim, agora empilhados, mofados ou sujos..., dá um aperto no peito.
               Sei que nem todos têm a mesma capacidade de sentir, ou de se emocionar. Para aqueles cujos sentimentos são verdadeiros e profundos, sei que esta página irá, de alguma forma, sensibilizar.
               O tempo, querida Marília, costuma soprar um pouco nossas feridas para que doam menos. Esquecer não! Mas conseguir lembrar sem sangrar tanto.
              A Primavera está aí, desabrochando em beleza e perfume para nos ajudar a aceitar a vida e a morte como as duas faces da nossa passagem por aqui. O Criador há de saber o que faz!
                     

3 comentários:

Jeanne disse...

Tomara que demore muito pra mim tornar a viver estes momentos, mas o que se pode fazer, não é mesmo?
É inevitável que todos iremos passar ou já passamos por isto...
Beijos

Marilia disse...

Querida amiga, só mesmo tu para transformar meus sentimentos de dor e perda numa ótima crônica, rica em reflexões para os que te leem. Obrigadíssima! É muito bom ter amigas como tu, que conseguem captar e compreender que, naquelas circunstâncias (desmonte da casa paterna), até desfazer-se das nossas xícaras do café-da manhã ou do relógio cuco tem a equivalência de uma fratura exposta na alma. Tuas palavras de ânimo para mim foram balsâmicas. Muito obrigada, mais uma vez.

Fernanda disse...

As palavras da Marília tocaram-me profundamente, Maria Luíza...já não entro na casa dos meus antepassados, mas só de passar em frente já sinto assim o meu coração. "Rebentado".
Profundas palavras, expressando sentimentos pungentes e tão..íntimos.

Beijos. Para a Marília também!