sábado, 21 de maio de 2016

ACHAQUES E DISFARCES



                           As pessoas gostam de inventar chavões para dourar a pílula e ludibriar as mazelas, assim como vivem dizendo que cada idade tem a sua beleza. Mas me digam só: qual é a beleza da velhice? Importância ela tem, mas beleza... não sei onde. Será nos cabelos ralos e finos da maioria dos homens e de algumas desafortunadas mulheres? Nos pescoços enrugados dos magros ou com papadas dos gordos? Nas manchas das mãos? Nos dedos semi tortos dos pés? Nas rugas, ou nas bochechas inchadas e artificiais do botox? Nas pálpebras que teimam em se deitar sobre os olhos?
                           Sei que muitos, a essa altura, já estarão na defensiva dizendo, “eu não sou assim”. Pois se ainda não é, saiba que um dia será. A alternativa é pior.
                          A velhice é feia, tem um cheiro doce meio enjoado, dói o joelho, doem os pés e a flexibilidade vai embora. Até para vestir a calça ou amarrar o sapato tem que vir um gemido junto. Nos gordos então...
                          Lembra quando você subia as escadas correndo, ou corria para alcançar alguém, muitas vezes até levando uma criança no colo? Esquece. Agora é aquele caminhar mais lento, mais inseguro, mais pesado.
                         Tudo que se come à noite pesa no estômago, ou lhe incha como um balão. Aliás, o aparelho digestivo dos velhos daria para ser usado na fabricação de vento. Ah, com você não é assim? Que bom! Mas vai ficar. E olha que estou só descrevendo a velhice saudável. Se fosse abordar as limitações e deficiências físicas dessa última idade teria que escrever um tratado.
                         A cabeça, para quem não foi acometido pelo terrível mal de Alzheimer, continua azeitada, cheia de cultura e de experiência e esse, para mim, é o único ponto realmente positivo da velhice. A paciência que finalmente chega, a calma nas situações mais tensas e a sabedoria de viver e deixar viver. Só para chegar a esse nível vale a pena suportar toda feiura da velhice.
                        As mulheres foram treinadas desde sempre a disfarçar seus defeitos e mazelas, a fim de que ninguém percebesse suas limitações. Os homens já se esforçam menos, achando que é assim mesmo e que não há o que fazer, acontece com todo mundo. Por isso, veem-se mais mulheres fazendo cirurgias plásticas, tratamentos estéticos, mil coisas para adiar ao máximo o encontro cruel com o espelho da vida.
                        Quando se chega com o espírito em forma na idade da decadência física, o sentimento mais forte é o da inadaptação. Não nos reconhecemos naquele rosto e naquele corpo e parece que cristalizamos em nós uma imagem anterior, bem mais aprazível.
                        Para quem não aprecia esses tratamentos radicais, ou teme suas consequências, o jeito é pedir aos fotógrafos que façam a gentileza de se afastarem sempre um pouquinho mais na hora de baterem suas fotos. Não resolve, mas dói menos.
                         E o bálsamo desse final de caminhada são os netos, dando aos velhos a doce ilusão de eternidade. Neles são depositadas as últimas esperanças e a eles é devotado todo carinho que sobrou.
                         Quem tem um companheiro ou companheira, velho também, terá maior compreensão, embora  menos vitalidade.
                         Para quem consegue ler e comprar bons perfumes, para quem se mantém asseado e não se aposenta da vida, ficar velho é um pouco menos pior.
                         Não adianta dourar a pílula, é assim mesmo. Aquela meia dúzia de velhos saracoteantes morre de dor nas costas quando deita.





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