sexta-feira, 8 de novembro de 2013

CONHECE-TE A TI MESMO




Esta crônica foi escrita "antes" da vinda dos netos. Serve para muitas pessoas que vivem este hiato entre a saída dos filhos do ninho e a chegada da nova geração.

 
Cada dia, na vida da gente, é uma nova descoberta. Tolo daquele que acha que já viu tudo, já sabe tudo, não tem mais nada para aprender.
Gosto muito de metáforas, de paráfrases, de comparações. A linguagem bíblica me encanta por conta (também) da maneira como Cristo falava.
Pensei agora em adequar minha idade a uma estação do ano, mas desisti. Outono seria muito manjado e eu nasci na Primavera.
O fato é estou descobrindo, noite após noite, depois que cada um se recolhe ao seu lar, que me tornei minha melhor amiga. E que solidão é a mesma coisa que estar sozinha e o resto é literatura.
Esta nova etapa na minha vida, onde tenho por companhia nas horas mortas apenas uma cachorrinha schnauzer, tem sido um aprendizado de autoconhecimento profundo. Descobri coisas em mim que nunca tinha tido tempo de reconhecer. De algumas gostei, de outras nem tanto.
Às vezes, sinto medo. De bandidos, de defuntos, de espectros que me queiram castigar por erros cometidos e até de ouvir as vozes das pessoas (tantas) nos porta-retratos.
Tive três filhos.  Cuidei deles praticamente sozinha. Lavei muita roupa, fiz muita comida, tomei muita lição, dei muito conselho, coloquei muito de castigo, dei muito banho, cortei muitas unhas, enfim, tudo triplicado, inclusive o amor e o orgulho que sinto deles.
Trabalhei muito fora de casa também, quando me aposentei tinha três empregos: um estadual e dois particulares. Lecionava em três turnos e me subdividia nos trabalhos da casa e na atenção aos filhos.
De repente, parou tudo.
Aposentei-me e os filhos saíram de casa.
O do meio, mais independente, foi o primeiro a sair. Só que morava perto e vinha para casa nos finais de semana. Mesmo assim, deixou “um buraco” na casa.
Depois casou o mais velho e seu lado do quarto, habitualmente bagunçado, fazia com que a nova organização doesse e apertasse meu coração. Cadê seus livros, roupas, tênis, discos, tudo esparramado ou empilhado nos cantos?
Quando saiu o caçula, o chão saiu também debaixo dos meus pés. Disfarçava tão mal que cheguei a ganhar uma cachorrinha, sem querer, do filho do meio, que queria distrair minha atenção, nem que fosse furiosa com os xixis e cocôs nos tapetes daquele filhotinho caro e feio. Hoje ela é a minha companheira nesta casa de três quartos, tantos porta-retratos e tão vazia.
Até a diarista (antiga) estranha a pilha de roupa para passar que quase sumiu, além de encontrar tudo nos lugares. Tudo não, só os objetos...
Separei-me do pai deles, que mora sozinho em outra cidade.
Casei-me com um homem que trabalha noutro estado e só vem me ver nos finais de semana, cuja ex-mulher (mãe de cinco filhos) também vive só.
Quatro solidões num indicativo familiar da contemporaneidade.
Se é certo ou errado, bom ou ruim, cada um sabe de si.
Que saudade da minha casa em Alegrete, quando “éramos seis” (Vó, Pai, Mãe, eu e meus dois irmãos)!





2 comentários:

Líbero disse...

Que bela nostalgia, é preciso perder para se achar não é mesmo, mas dai já é tarde demais. Mesmo assim, me vi em seu texto, os filhos, 3 ao todo, estão se ausentando, logo a casa ficará vazia.a saudade do que se vai é que nos revigora, pois temos a certeza do bem feito.

Líbero disse...

Que bela nostalgia, é preciso perder para se achar não é mesmo, mas dai já é tarde demais. Mesmo assim, me vi em seu texto, os filhos, 3 ao todo, estão se ausentando, logo a casa ficará vazia.a saudade do que se vai é que nos revigora, pois temos a certeza do bem feito.