sexta-feira, 31 de agosto de 2012

AGIOTAGEM INSTITUCIONALIZADA

Com esse título, só posso estar me referindo aos bancos não é?
         E como o banco em si não pode ser responsabilizado, por não se constituir num sujeito, dedico minha reflexão aos banqueiros e aos mandatários das instituições bancárias. Que fique claro que minhas críticas não se reportam aos funcionários, à sofrida, cobrada e mal paga classe dos bancários.
         Antes dos bancos, o dinheiro era enterrado, guardado dentro do colchão ou disfarçado entre latas de biscoito, malas com fundo falso, bolsos costurados, gavetas chaveadas e mil outras formas sempre criativas de proteger aquilo que poderia garantir o sustento e o conforto das famílias. 
          Não fiz pesquisa, tampouco consultei a historiografia bancária, cito apenas o que ouvi dizer, ou vivenciei nesses anos todos em que recebo salário pelas aulas que ministro (ou ministrava).
       Assim como quase todos os brasileiros, recebo meu salário num banco e é lá que deixo guardado o que sobra, quando sobra. O que me causa estranheza é que preciso pagar para deixar lá, pagar para saber quanto tenho na conta, pagar para usar folhas de cheque, pagar para manter um cartão eletrônico e pagar mil outras taxas, com nomes variados, cuja finalidade é sempre diminuir o pouco que tenho.
        Como correntista eu me sinto explorada; agora, verdadeira exploração é o que os gerentes e mandantes das agências bancárias fazem com seus funcionários. É de enlouquecer um cristão!
        De chegada, na reunião matinal antes de serem abertas as portas ao público, os funcionários já recebem ordens ríspidas, metas difíceis de atingir e ameaças bem pouco veladas.
        Durante o expediente externo são fiscalizados, controlados e admoestados caso se demorem muito com um cliente que consumiu pouco. E devem manter o sorriso, mesmo sabendo que olhos cruéis estão sobre si e muitas vezes penalizados de precisar empurrar seguros, cartões, o diabo a quatro para pessoas com pouca saúde, pouco dinheiro e quase nenhum entendimento do que lhe é proposto.
        No final do expediente vem a pior parte: o acerto de contas com as metas não atingidas, as explicações não aceitas e novas ameaças.
       O bancário volta para casa arrasado, muitos chorando pelo caminho, a cabeça latejando e um sonho cada vez maior de ser aprovado num concurso público e não precisar dormir cada noite com uma arma apontada para seu emprego.
       É claro que a família sofre também, que o estresse é repartido entre marido, esposa e filhos e cada domingo à noite é como se precisasse se preparar para o martírio de mais uma semana.
       No tempo da escravidão, os senhores de engenho quase não tinham contato com os escravos. Cabia ao feitor castigá-los da forma que melhor lhe aprouvesse, desde que os fins cobrados pelo Senhor fossem atingidos.
         Na hierarquia militar cabe ao Sargento comandar efetivamente a tropa, pois os oficiais dão as ordens e os sargentos fazem com que os soldados as executem a contento.
         Nos bancos, uma instituição financeira onde tudo deveria ser mais acético, mais matemático, os gerentes são feitores e sargentos, cobrados por seus superiores e só promovidos e condizentemente remunerados se conseguirem fazer com que seus funcionários vendam, vendam muito, vendam tudo, sem saber se o pobre coitado terá condições de pagar a dívida depois. Para isso existe o setor de cobrança.
         Uns vendem, outros cobram. No meio, nós.


PS.: Este texto foi publicado no blog em 05/02/2011 , conforme histórico de postagens.
   

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